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Agenda

  • CURSO DE HABILITAÇÃO - Hipnose Moderna: Abordagem de Milton H. Erickson

    Início em 2019. Participe!

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  • Laboratório das emoções

    Um sábado ao mês de setembro de dezembro. Icaraí - Niterói.

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  • Palestra Um novo olhar no momento de Crise

    17/08/2018. Das 19h às 21h Local: Rua Mem de Sá, nº 61. Icaraí, Niterói - RJ

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  • Workshop Vivencial - "O EU SOU, despertando a força interior"

    Uma troca de experiência sobre valores espirituais e os limites de nós como humanos. 15 de Abril em Niterói. Entrada Colaborativa

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  • GRUPO DE CRESCIMENTO

    19/09 à 21/11/18 – 19h às 21h. Participe!

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  • WORKSHOP "MEU NOME, SOBRENOME E MEUS ANTEPASSADOS"

    24 de fevereiro de 2018 em Niterói.

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  • MEDITAÇÃO ERICKSONIANA

    Às terças-feiras, em março, com dois grupos, de 16h às 14h45 e 19h às 20h45 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • TARDES DE CINEMA com a 3ª idade - Divertidamente - Trabalhando as Emoções

    18 de outubro de 2017, das 15h às 18h - Facilitadoras: Suely Dessandre e Angélica Glória. Direção geral: Regina Nohra

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  • TARDES DE CINEMA com a 3ª idade

    27 de setembro de 2017 - Facilitadoras: Ana Zagne e Suely Engelhard. Direção geral: Regina Nohra

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  • OFICINA GRATUITA NA UFF - A utilização da Hipnose Moderna na atualidade

    18 de setembro de 2017, às 19h - Facilitadora: Regina Nohra

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  • WORKSHOP GRATUITO VIVENCIAL - Meu nome, sobrenome e meus antepassados

    16 de setembro de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • TARDES DE CINEMA com a 3ª idade

    23 de agosto de 2017 - Facilitadora: Fernanda Pessanha. Direção geral: Regina Nohra

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  • PALESTRA GRATUITA - Cristais, instrumentos do despertar humano

    15 de julho de 2017 - Facilitadora: Maria Cecília de Carvalho

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  • GRUPO DE CRESCIMENTO - Participação gratuita no primeiro encontro! Faça sua inscrição!

    21 de junho de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • GRUPO DE CRESCIMENTO - Participe gratuitamente do primeiro encontro! Vagas limitadas, inscreva-se já!

    15 de maio de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • EVENTOS com Regina Nohra em Niterói

    Conheça nossas atividades com Regina Nohra, em Niterói, em maio e junho de 2017

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  • LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADE DAS EMOÇÕES - Responsabilidade Consciente (Aracaju)

    10 de junho de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • CURSO de Auto Hipnose

    20 de maio de 2017 - Facilitador: Raphael Luz

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  • GRUPO DE CRESCIMENTO

    15 de maio a 30 de julho de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • MEDITAÇÃO ERICKSONIANA (encontros semanais, às terças-feiras)

    04 de abril de 2017 (início) - Facilitadora: Regina Nohra

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  • PALESTRA GRATUITA - Empoderamento Feminino

    25 de março de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • PALESTRA GRATUITA - Autoliderança & Inteligência Emocional

    11 de março de 2017 - Facilitadora: Rosa Castro

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  • PALESTRA GRATUITA - Como criar um futuro irresistível agora?

    16 de fevereiro de 2017 - Facilitadora: Mônica Panasco

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  • PALESTRA GRATUITA - Manejo do estresse: Da cabeça quente à mente iluminada

    06 de fevereiro de 2017 - Facilidarores: Juliana Viard e Júlio Cesar Quaresma.

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  • LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADE DAS EMOÇÕES

    04 de fevereiro de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • WORKSHOP - Metas 2017: Transformando sonhos em resultados extraordinários

    07 de janeiro de 2017 - Facilitador: Emerson Pacheco

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  • Curso Intensivo de Formação Hipnose Natural: Abordagem de Milton H. Erickson

    Transmitir vida e obra do Dr. Milton H. Erickson, pai da hipnose natural e criador das técnicas Ericksonianas. Difundir os conhecimentos científicos da Hipnose Natural Ericksoniana. Capacitar os alunos para utilizar os princípios técnicos da Hipnose Natural Ericksoniana que é um instrumento eficaz para lidar com as manifestações e sintomas dos pacientes nos tratamentos psicoterápicos, médicos, fisioterápicos e odontológicos. Faça seu cadastro e receba mais informações.

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Artigos e Textos

Livro Terapia não-convencional – Capitulo III – Jay Haley (9/2018)

Jay Haley

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O ciclo de vida familiar – CAP III

O CICLO DE VIDA FAMILIAR

A vida familiar é a arena da paixão humana,  mas só recente­mente este contexto passou a ser realmente observado e levado a sé­rio.  Torna-Se cada vez mais  evidente que com o tempo  as  famílias passam  por  um  processo  de  desenvolvimento,  e  que  a  infelicidade humana e os sintomas psiquiátricos surgem quando este processo é interrompido. No entanto, tem sido difícil para o profissional, tan­to do campo da clínica quanto da ciência social,  levar a sério essas questões comuns da vida. Parece que tanto na psiquiatria quanto na psicologia houve um enfoque mais profundo das questões da identi­dade, das formações delusórias, das dinâmicas inconscientes ou das leis da percepção concernentes aos dilemas surgidos quando homens e mulheres se unem  e  criam  filhos.  Agora que  começamos  a  com­preender a enorme influência do contexto social íntimo sobre a na­tureza do indivíduo, estamos diante do fato que os contextos sociais mudam com a passagem do tempo e que só possuímos informações muito  limitadas  a  respeito  desse  processo. Afirmar que deveria ser empregada uma abordagem estratégi­ca em terapia é levantar a questão do objetivo para o qual a estraté­gia é planejada.  Nos últimos vinte anos, progredimos rumo a uma visão  cada vez mais  abrangente  do  funcionamento  dos  sintomas  e outros problemas humanos. Outrora, os sintomas eram vistos como a expressão de um indivíduo, independentemente de sua situação so­cial. A crise de ansiedade, ou de depressão, era a expressão do esta­do de uma pessoa. A seguir, surgiu a idéia de que os sintomas eram a expressão de  uma  relação  entre  pessoas  e  serviam  a  um  propósito tático entre íntimos.  Numa crise de ansiedade, a questão era desco­brir a função que ela preenchia no casamento, na família, no traba­lho ou na relação com o terapeuta. Atualmente, há uma visão ainda mais abrangente, que está implícita na terapia de Milton Erickson. Os sintomas aparecem quando há um deslocamento, ou uma interrupção,  no desabrochar do ciclo de vida de uma família ou  outros grupos naturais.  O sintoma é um sinal de que a família tem dificul­dades em ultrapassar um estágio em seu ciclo de vida. Por exemplo, uma crise de ansiedade na mãe,  quando dá à luz,  é a expressão da dificuldade da família em atingir o estágio de educar crianças. A es­tratégia terapêutica de Erickson, embora enfoque nitidamente os sin­tomas, tem como objetivo maior a resolução dos problemas da família, para  fazer  com  que  o  ciclo  familiar  se  movimente  de  novo. A admiração por seu virtuosismo técnico pode nos fazer perder de vista os pressupostos básicos sobre a vida familiar que guiam sua estratégia. Quando se aceita a importância do processo de desenvolvimento das famílias no transcurso do tempo, descobre-se,  de imediato,  co­mo é pouca a informação que se tem sobre o ciclo de vida das famí­lias. Estudos longitudinais, baseados na observação da família, não foram empreendidos.  Existem,  unicamente,  pesquisas  nas  quais  se pergunta a cada membro da família sobre sua vida, mas elas se mos­traram altamente indignas de confiança. Toda a informação restan­te se baseia em famílias que buscaram a terapia quando estavam com problemas; sendo assim, temos observado diferentes estágios no ci­clo familiar, sem saber o que vem antes e o que naturalmente se se­gue. O clínico que deseje compreender o desenvolvimento natural das famílias para direcionar sua estratégia descobre que ignora esse pro­cesso e trabalha sob o  fardo de mitos a respeito de como a família deveria  ser,  ao  invés  de  saber  como  ela  é.Um problema adicional é que,  qualquer compreensão  que te­nhamos sobre o desenvolvimento da família pode ficar rapidamente desatualizada, pois a cultura muda e novas formas de vida familiar aparecem. A família nuclear, constituída apenas por pais e filhos que moram em casas separadas do restante de seus parentes, é um fenô­meno  recente.  À medida  que  começamos  a  entender  a  família nu­clear,  descobrimos que estão aparecendo novas  formas de famílias comunais, e o terapeuta que trabalha com jovens pode ser pego pen­sando em termos de um modelo obsoleto. Um clínico precisa ser to­lerante a respeito dos diversos modos de viver e,  ao mesmo tempo, ter domínio dos processos de desenvolvimento das famílias, que lhe permitirão  reconhecer  estágios  críticos.Um breve resumo de alguns desses estágios de crise nas famí­lias de classe média americana talvez ofereça um pano de fundo pa­ra a compreensão da abordagem estratégica de Erickson, embora es­teja bem longe de ser inteligível e ignore as diferenças de classe e cul­tura. A extraordinária complexidade da família em qualquer momento dado,  que é maior ainda durante seu período de vida, torna impos­

sível que  se tente  mais  aqui.  Esta é uma moldura rudimentar  para os capítulos  posteriores,  que apresentam os modos  como  Erickson resolve  problemas  em  diferentes  estágios  da vida  familiar.Mas antes de tentar descrever o ciclo familiar,  talvez devêsse­mos abordar uma possível objeção a esta visão terapêutica. Afirmar que o objetivo da terapia é ajudar as pessoas a ultrapassar uma crise rumo ao próximo estágio da vida familiar pode levar alguns clínicos a considerá-la um modo de “ ajustar” as pessoas a suas famílias, ou à sociedade que modela a família.  Um tal ponto de vista é ingênuo, pois não leva em conta o fato de que a liberdade e o crescimento do indivíduo são determinados pelo grau de sucesso que ele obtém de sua participação no grupo natural e em seu desenvolvimento. Pode-se pen­sar que o indivíduo socialmente isolado é mais livre do que a pessoa que participa do amor e do trabalho, mas isso não é verdade quando se examina as restrições que sofre aquele que vive isolado da sociedade.Há duas maneiras de “ajustar” a pessoa à sua situação sem pro­duzir mudança de crescimento.  Uma é estabilizar  a pessoa através do uso de medicamentos.  Se um jovem atingiu certa idade e a famí­lia não consegue atingir o estágio de liberá-lo, ele manifestará sinto­mas. Os medicamentos evitarão problemas, mas não impedirão a mu­dança e tornarão a situação crônica, tanto para o jovem quanto pa­ra a família.  Outro modo de ajustamento é uma longa terapia indi­vidual, centrada em ajudar a pessoa a compreender seu desenvolvi­mento na infância e  suas incompreensões,  ao  invés de tentar abor­dar  a  situação de sua vida presente.  Muitas  esposas,  por exemplo, descontentes com o estreito padrão de vida suburbana,  foram esta­bilizadas durante anos pela análise intensa. Ao invés de encorajá-las a começar a agir,  o que as conduziria a uma vida mais rica e mais complexa, a terapia impediu a mudança,  impondo a idéia de que o problema  estava  em  sua  psique  e não  em  sua  situação. Quando se pensa na terapia como um meio de introduzir varie­dade e riqueza na vida de uma pessoa, o objetivo é livrá-la das limi­tações e restrições  da  rede  social.  Os sintomas  comumente  surgem quando uma pessoa está numa situação impossível, tentando livrar-se dela.  Já se pensou que focalizar o sintoma era  “ meramente”  alivi­á-lo  à medida que a pessoa  se ajustava.  Esta noção era sustentada por clínicos que não sabiam como curar um sintoma e por isso não percebiam que, com raras exceções, um sintoma não pode ser cura­do sem produzir uma mudança básica na situação social da pessoa, que a libera para crescer e se desenvolver. Ataques de ansiedade, por exemplo, que são um produto da situação interpessoal restrita, não podem ser aliviados a não ser que o terapeuta intervenha para ajudar o  paciente  a  encontrar  outras  alternativas  na  vida

 

 

 

 

 

O PERÍODO DO  NAMORO

 O estudo sistemático da família humana é muito recente e coin­cidiu com o estudo dos sistemas sociais de outros animais.  Desde os anos 50, os seres humanos, assim como os animais do campo ou os pássaros do ar, têm sido observados em seu meio ambiente natural. Tanto as semelhanças quanto as diferenças cruciais entre os homens e os outros animais, que ajudam a esclarecer a natureza dos dilemas humanos,  estão se tornando evidentes.  Os homens têm em comum com  outras criaturas o processo de desenvolvimento do namoro,  o acasalamento, a construção do ninho, a criação dos filhos e seu de- salojamento rumo à própria vida, mas, devido à organização social mais complexa dos seres humanos, os problemas que surgem duran­te  o  ciclo  de  vida  da  família  são  únicos  entre  as  espécies.Todo aprendizado animal compreende os rituais de namoro na idade apropriada, e a gama de variações possíveis é ampla. Em espé­cies que vivem em rebanhos anônimos, na época propícia um indivíduo se acasala com qualquer um que esteja passando no momento,  pre­ferivelmente um membro do sexo oposto. Em outras espécies o aca­salamento é menos anônimo;  uma criatura encontrará seu parceiro durante a estação de acasalamento anual,  mas não haverá acasala­mento em outras épocas.  Muitas espécies também escolhem parcei­ros por toda a vida e procriam regularmente durante anos. O ganso selvagem, por exemplo, se associa para a vida toda, e, se um parcei­ro morre, o sobrevivente o pranteia e pode não se acasalar novamente.A espécie humana, dada a sua complexidade, pode adotar qual­quer dos hábitos de acasalamento dos outros  animais.  Um homem pode copular com qualquer mulher que passa,  quanto mais anôni­ma melhor.  Os homens podem também ter affairs clandestinos, re­lacionar-se com uma mulher específica somente em ocasiões sexuais e nunca vê-la em outros momentos.  Os seres humanos também ten­taram o arranjo de múltiplos maridos ou esposas característicos de algumas espécies. Mais comumente, os homens selecionam uma única parceira para toda a vida e permanecem constantemente com ela; ao menos, esse é o mito da monogamia da classe média americana, que é  o  centro  de  nossa  discussão.Uma diferença crucial entre os homens e todos os outros ani­mais é o  fato de o homem ser o único animal com parentes.  A pa- rentela está envolvida em todos os estágios da vida familiar huma­na, quando em outras espécies há descontinuidade entre as gerações: os pais criam seus filhos,  que então vão embora e escolhem parcei­ros  sem  a assistência  dos  mais  velhos.  A  mãe  ursa  não  diz  à  filha com quem deve se acasalar nem supervisiona o modo como ela cria

seus filhotes,  mas os pais humanos selecionam parceiros potenciais para seus filhos e ajudam a criar os netos.  O casamento, então, não é  meramente  a junção  de  duas  pessoas,  mas  uma  reunião  de  duas famílias que exercem suas influências e criam uma rede complexa de subsistemas. Este envolvimento com a parentela extensiva é mais importan­te para diferenciar a espécie humana de outros animais do que o po­legar preênsil, o consistente uso de instrumentos ou o cérebro maior. De fato, o cérebro maior do homem pode ter se desenvolvido para poder lidar com a rede social mais complexa. É também possível que o envolvimento de múltiplas gerações tenha produzido nos seres hu­manos problemas psiquiátricos que não são encontrados entre os ou­tros animais.  (Neurose ou psicose em animais parecem ocorrer  somente  quando  os  seres  humanos  intervém    não  naturalmente.)Vários dos maiores dilemas da vida humana aparecem durante o período da adolescência, em que o jovem passa por modificações para se tornar um membro adulto da comunidade. O que ocorre nesta época pode ter efeitos  permanentes  sobre  o  lugar  que  o  indivíduo ocupará na hierarquia social. Esta é uma das épocas mais importan­tes da vida, quando a ajuda profissional é solicitada e as consequências dessa intervenção podem ser mais duradouras do que em qualquer outro  momento. Quando os seres humanos, ou os animais de qualquer espécie, entram na fase final da adolescência, eles começam a perder a tole­rância de que gozam os adolescentes à medida que se integram à co­munidade adulta. Há um certo período, felizmente relativamente longo na espécie humana, para que o jovem estabeleça seu status em rela­ção aos outros e escolha um parceiro. Entre a maioria dos animais, aqueles que não conseguem estabelecer um território próprio duran­te este período crucial são relegados ao status mais baixo da comuni­dade e não se acasalam. Tornam-se animais periféricos,  que vagam pelas margens do território dos outros, e, se tentam lutar para ganhar espaço e status, se confrontam com a regra de que a criatura que con­trola o espaço quase invariavelmente ganha quando luta em seu pró­prio terreno.  Esses párias descobrem que as fêmeas não estão incli­nadas a se acasalar com machos que não adquiriram status, e as fê­meas que não são selecionadas como parceiras, por sua vez, tornam-se criaturas periféricas, ignoradas pelos machos e atormentadas por to­das as fêmeas que conseguiram machos, e por conseguinte status. Os animais periféricos da maioria das espécies não são defendidos nem cuidados. São os descartados da natureza, oferecidos aos predadores como parte da proteção do grupo. Suas vidas são comparativamente mais curtas,  e eles não procriam ou  se reproduzem.

Na espécie humana,  os descartados periféricos são oferecidos às profissões assistenciais:  caridade,  serviço social, psicologia e psi­quiatria se aplicam a eles. As profissões de ajuda são, por natureza, auxiliares  benévolos  e também  agentes  do  controle  social.  Em  seu aspecto benevolente, tentam ajudar aquele que se desviou socialmente - a obter um emprego e um parceiro e se tornar uma parte atuante da comunidade. Como controladores, tentam conduzi-lo de volta ao re­banho da instituição, onde ele é impedido de se tornar um transtor­no para aqueles que ganharam espaço e adquiriram status. Algumas vezes,  também  se  acredita  que  isso  é  ajuda. Embora saibamos menos sobre o comportamento de namoro dos jovens adolescentes americanos do que sabemos sobre outros animais (a corte do ganso selvagem é estudada há séculos), sabemos que existe um fator tempo e um fator risco.  Há um período em que os jovens estão todos aprendendo a cortejar e participando desta atividade, e quanto mais uma criança retardar este processo, mais periférica ela se torna à rede social. Um jovem que até os vinte anos não tiver tido nenhum encontro  se sentirá marginalizado ao lidar com outros jo­vens da sua idade, que estiveram experimentando procedimentos de namoro durante anos. Não é só que o jovem inexperiente não tenha aprendido a lidar com o sexo oposto, ou que não possa provocar as respostas  físicas  adequadas,  mas  seu  comportamento  social  não  é apropriado; aqueles que escolhem cortejar já praticaram o compor­tamento de namoro avançado, enquanto ele está ainda se inserindo nos  estágios  iniciais  do  processo. Se o namoro fosse um processo racional, o problema seria me­nos  complexo,  mas claramente ela não é.  Os jovens  se casam para fugir de casa, para salvar um ao outro, porque simplesmente se apai­xonaram,  porque  desejam  ter  filhos  e por muitas  outras  razões.  O primeiro encontro entre dois jovens pode conduzir a resultados im­previsíveis.  Um  problema  específico  para  o  adolescente  humano  é seu simultâneo envolvimento com a família e seus pares. As manei­ras que precisa apresentar para se adaptar à sua família podem im­pedir seu desenvolvimento normal com as pessoas de sua idade. Essencialmente, o problema é de  desaleitamento,  e este processo  não se completa até  que  o  filho  saia  de  casa  e estabeleça laços  íntimos fora da família.  O longo período nutriente, requerido para o desen­volvimento humano, pode induzir os mais jovens a nunca deixarem o lar,  ao invés de prepará-los para uma vida separada.  A mãe ursa mandará os filhotes subirem na árvore e os abandonará. Os pais hu­manos podem soltar seus filhos, mas podem também enredá-los perpetuamente  na  organização  familiar.

Muitos adolescentes que se tornam pessoas periféricas não conseguem  nunca  se  separar  suficientemente  de  suas  famílias,  ou  ori­gens, para percorrer os estágios necessários de escolher um parceiro e construir seu próprio ninho. Em algumas culturas a seleção do par­ceiro é  definida explicitamente como  direito  dos  pais,  mas  mesmo em culturas com idéias mais românticas sobre o casamento o jovem não é suficientemente livre para escolher  suas  companhias do sexo oposto. Tão logo um moço se aventura para fora da própria família e se liga seriamente a uma moça, dois pares de pais se tornam parte do processo de tomada de decisões.  Mesmo quando os jovens esco­lhem parceiros por despeito, porque os pais se opõem à escolha, ain­da assim eles são apanhados pelo envolvimento parental,  porque a escolha não é independente.  O que já foi encarado como uma  “ es­colha neurótica de  parceiros”  evidentemente envolve  um  processo de  decisão  familiar.Para muitos  adolescentes,  a ajuda de um terapeuta profissio­nal se torna uma cerimônia de iniciação,  na medida que provê uma relação com um estranho cujo  objetivo é ajudá-lo a adquirir inde­pendência e maturidade.  É uma maneira pela qual  a cultura ajuda o jovem a se livrar dos laços da organização familiar, entrar no ca­samento  e  constituir  a  própria  família.A terapia, quando obtém sucesso, transfere o jovem para uma vida na qual ele pode tirar o melhor partido de suas habilidades po­tenciais. Quando não obtém sucesso, a pessoa se torna uma criatura periférica; e a terapia pode contribuir para esse malogro. Quanto mais drástica a intervenção do terapeuta — por exemplo,  quando impõe a hospitalização ou insiste em anos de tratamento —,  mais perma­nentemente o estigma de ser uma pessoa “ especial” persegue o ado­lescente.  A própria  relação terapêutica pode diminuir,  ao  invés  de aumentar,  suas  chances.  Tratamentos  a prazo  longo  podem  intro­duzir um  viés  na vida  de  um  jovem  de  muitas  maneiras;  perpetua o envolvimento financeiro dos pais,  cria uma relação de dependên­cia baseada num relacionamento, como substitutivo de relacionamen­tos mais naturais, e cria uma espécie de adolescente particularmente centrado em se tornar consciente de por que faz o que quer que seja e  com  uma  restrita  ideologia  de  explanação.À medida que  os terapeutas  aperfeiçoam  sua  destreza,  a for­mulação dos objetivos do tratamento se torna mais precisa e as téc­nicas terapêuticas mais eficientes. Uma alteração importante decor­reu da percepção de que todos os adolescentes com problemas não podem se encaixar num único método de terapia;  cada indivíduo é um  contexto  único,  e  a terapia precisa  ser  suficientemente  flexível para se adaptar às necessidades da situação singular.  O tratamento

da maioria dos adolescentes ocorre quando os jovens sentem que não conseguem participar como gostariam do amor e do trabalho, e en­tão estabelecem os objetivos que o terapeuta deveria ajudá-los a atin­gir.  Com freqüência, ambos,  o terapeuta e o paciente,  formulam o objetivo, mas no processo de tratamento um terceiro tipo de objeti­vo aparece, sem ter sido previsto por nenhum dos participantes. Quan­do um profissional de ajuda intervém na vida de uma pessoa,  o re­sultado  não  é  de  modo  algum  previsível.Um dos problemas para o clínico que lida com jovens é que ele precisa ter sabedoria suficiente para ser um guia,  mas não pode ter uma visão estereotipada,  que o leve a  “ ajustar”  os jovens  a idéias de como eles deveriam viver. É comum, por exemplo, que jovens se casem e criem filhos, mas muitos que não escolhem este caminho podem  levar vidas  satisfatórias.  Se um jovem busca a terapia porque deseja se casar, ou ter sucesso na carreira, e não consegue, o clínico deveria saber como ajudá-lo a atingir seu objetivo;  se, no entanto, um jovem  não  escolhe este  caminho  de  vida,  impô-lo,  porque  é  o comportamento “ aceitável” , é irreal e pode tolher os esforços tera­pêuticos. Felizmente, nossa cultura americana ainda é suficientemente diversificada para permitir que as pessoas vivam de maneiras que não se enquadram na norma da classe média,  da família nuclear do subúrbio. Se um  clínico  acredita  que  o  objetivo  da terapia  é  introduzir complexidade e riqueza na vida de uma pessoa, ele estará mais ocu­pado em encorajar modos alternativos de viver do que o conformis­mo a um padrão socialmente aceito. O problema para o clínico é reconhecer que muitos jovens vivem vidas estreitas porque não conseguiram  se  desembaraçar de  suas  famílias.  Por exemplo,  alguns jovens vivem vidas marginais porque são parte de uma cultura jovem que busca estilos alternativos de vida.  Outros vivem de modos peri­féricos porque é sua função na família serem o fracassado.  Não es­tão respondendo a seus pares, mas ao que aconteceria em casa se escolhessem  um caminho mais  convencional,  e,  embora pareçam ter feito  uma escolha,  estão  na verdade  respondendo  impotentemente à complicação familiar. Falar com eles sobre um modo diferente de vida é  como  falar  com  um  prisioneiro  a respeito  de como  poderia usar sua liberdade. A dificuldade para o clínico é determinar as res­trições que impedem o jovem de conseguir uma vida mais comple­xa e interessante,  o que em geral é impossível  sem conhecer toda a família. Assim  como  os jovens  podem  evitar  o  casamento  por  razões familiares internas, eles podem também correr para o casamento pre­maturamente, numa tentativa de se desembaraçar de uma infeliz re­

de familiar.  Com frequência, a tarefa do clínico é impedir que o jo­vem passe muito rapidamente para o próximo estágio da vida familiar,  antes que ele tenha reconhecido a possível diversidade de mo­dos  de  vida. A abordagem  do  dr.  Erickson para resolver os problemas  da corte  é  apresentada  no  Capítulo  III.

O  CASAMENTO  E  SUAS  CONSEQÜÊNCIAS

A importância da cerimônia do casamento,  não só para o jovem  casal,  mas  para a  família inteira,  está começando  a  se tornar mais aparente à medida que os jovens desistem dela.  Os rituais que muitas vezes parecem supérfluos aos jovens podem ser demarcações importantes dos estágios, que ajudam as pessoas envolvidas a fazer a alteração para novas maneiras de se relacionarem. Na maioria das culturas, as cerimônias que cercam o nascimento, a puberdade, o ca­samento e a morte são protegidas como algo crucial para um viver estável. Qualquer que seja a relação entre um par de namorados antes do casamento,  a cerimônia altera a natureza do relacionamento de maneiras imprevisíveis. Para muitos casais, o período de lua-de-mel e a fase anterior ao nascimento dos filhos  são deliciosos.  Para outros,  ao contrário, uma tensão desnorteante pode ocorrer, rompendo o elo matrimonial ou produzindo sintomas no indivíduo mal te­nha  começado  o  casamento. Alguns casamentos são problemáticos desde o início devido ao motivo que os originou.  Por exemplo,  jovens  que se casam princi­palmente para fugir de suas famílias podem descobrir, uma vez ca­sados, que a razão para o casamento desapareceu.  Eles escaparam, mas  para  um  casamento  que não  tem  nenhum  outro  propósito,  e, para que este continue,  devem descobrir alguma outra base.  A ilusão  sobre o  casamento  com  frequência está  muito  distante  do  que ele  realmente é. Embora o ato simbólico do casamento tenha ura significado di­ferente para cada pessoa, ele é, em primeiro lugar, um compromisso de um para com o outro por toda a vida.  Nessa época de divórcios fáceis,  pode-se entrar  num  casamento  com  algumas  restrições,  co­mo se fosse um teste. Mesmo assim, na medida em que é um compromisso,  os jovens se descobrirão respondendo um ao outro de novas maneiras. Algumas vezes sentem-se enredados e começam a agir com rebeldia, discutindo a respeito de problemas de autoridade; ou sentem- se livres para serem         “ eles mesmos”  e apresentam comportamentos inesperados para o outro cônjuge.  Pelo  ato  do  casamento,  o  casal é absolvido de esconder alguma coisa um do outro; este movimento para uma intimidade sem reservas pode ser bem-vindo, mas pode tam­bém ser assustador. Muitos jovens conservadores ainda adiam as re­lações sexuais até estarem casados, e diferentes idéias sobre esta aven­tura, assim como expectativas prévias exageradas, podem causar desapontamento  e  confusão. Quando  o  casal  inicia uma vida  em  comum,  precisa elaborar uma série de ajustes necessários a qualquer par que viva em íntima associação.  Deve concordar sobre a maneira de lidar com as  famílias de origem, com seus pares, com os aspectos práticos da vida co­mum e as diferenças sutis e genéricas entre eles enquanto indivíduos. Implícita ou explicitamente, precisam resolver um extraordinário nú­mero de questões,  algumas das quais não poderiam ter sido previs­tas antes do casamento,  incluindo quem decidirá onde irão morar, quanta influência a esposa terá na carreira do  marido,  se um deles deverá julgar os amigos do  outro,  se a esposa deverá trabalhar  ou permanecer em casa,  e centenas de outros assuntos,  aparentemente triviais,  tal  como  quem deverá guardar  a roupa de quem.  Suas  informações a respeito do casamento, e suas experiências reais, são duas ordens  diferentes  de  entendimento. À medida que soluciona sua relação, o jovem casal precisa tam­bém planejar modos de lidar com as divergências. Com frequência, neste período inicial, evitam as controvérsias ou afirmações críticas devido à aura benevolente do novo casamento e porque não querem ferir o sentimento um do outro.  Com o tempo,  as áreas controver­sas que evitaram tornam-se maiores, e eles seguidamente se vêem à beira de uma briga e se descobrem misteriosamente irritados um com o  outro.  Algumas vezes  os  assuntos  que  não podem  ser  discutidos ficam  embutidos no casamento.  Com maior  freqüência,  um traz à tona uma questão menor, o outro revida na mesma moeda e os dois têm uma briga que explicita as questões que até o momento haviam comunicado só indiretamente. Essas brigas, em sua maioria, são as­sustadoras devido às emoções inesperadas que provocam, e o casal faz juras e votos de não brigar novamente.  Mas, gradualmente,  assuntos  não  discutidos  se  imiscuem  no  casamento,  até  que  explode uma nova briga.  No processo, eles descobrem modos de resolver as divergências e ordenar as consequências. Algumas vezes, as próprias soluções são insatisfatórias, levando a um crescente descontentamento, que emerge  posteriormente  no  casamento.  Por exemplo, um  casal pode achar que a controvérsia pode ser resolvida somente se um dos dois ceder ao outro mais do que ele ou ela acredita ser apropriado. Neste período inicial, maridos e esposas aprendem o poder manipulativo da  fraqueza  e  da  doença,  assim  como  o  poder  da  força.

A maioria das decisões tomadas pelos recém-casados são influenciadas não    pelo  que  eles  aprenderam  em  suas  respectivas  famí­lias,  mas  também  pelas  emaranhadas  alianças  atuais  com  os  pais, que são um aspecto inevitável do casamento. Individualmente, os jo­vens devem deixar de ser dependentes de seus pais para se relacionarem  com  eles  como  adultos  independentes  e  se  comportarem  dife­rentemente  em  relação  a  eles. As decisões que o par recém-casado toma não podem, facilmen­te,  ser separadas da influência parental.  Por exemplo,  se  a mulher deve ou não trabalhar ou onde o jovem casal irá residir são questões influenciadas pelos pontos de vista dos pais.  Os jovens precisam es­tabelecer um território com alguma independência da influência parental,  e os pais,  por seu lado,  precisam modificar a maneira de li­dar com os filhos depois do casamento. Muita ajuda benevolente pode ser tão danosa para o jovem casal quanto a censura destrutiva. Quan­do os pais continuam a prover apoio  financeiro,  há uma barganha implícita ou explícita sobre  o direito que terão de ditar o modo  de vida em troca daquele apoio.  Dar dinheiro pode ser uma ajuda ou algo pernicioso, e surgem questões a respeito do assunto: o dinheiro deveria ser dado em espécie, em presentes, para um ou para o outro, ou para os dois como casal?  Deve ser dado livremente ou com uma crítica implícita de que a ajuda não deveria ser necessária?  Uma ci­são pode ser criada num casamento recente devido à natureza do en­volvimento dos pais, em geral sem muita percepção do que está cau­sando o mal-estar. Quando o casamento é enredado em conflitos com os parentes extensivos, sintomas podem se desenvolver. A esposa que não consegue evitar a intrusão de sua sogra no casamento, por exemplo, pode desenvolver sintomas  como um modo de  lidar com a  situação. Alguns casais tentam tornar seu território totalmente independente, separando-se totalmente da família extensiva.  Em geral, isto não tem sucesso e tende a erodir o casamento, porque a arte do ca­samento exige que o casal consiga independência enquanto, simulta­neamente, permanece emocionalmente envolvido com os próprios pa­rentes.  (Casos que ilustram maneiras de resolver problemas no início do casamento  são  apresentados  no  Capítulo  IV.)

PARTO  E  CUIDADO  COM  O  BEBÊ

Parte da aventura do casamento é que,  quando os  problemas de um estágio começam a ser resolvidos, o próximo se inicia, trazen­do novas oportunidades problemáticas. Um jovem casal, que tenha elaborado um modo agradável de convivência durante o período do início do casamento, descobre que o parto faz surgir novas questões e desestabiliza as antigas. Para muitos casais, este é um período deli­cioso  de  antecipação  e  acolhimento  da  criança,  mas  para outros  é um período de sofrimento que assume formas diversas. A esposa pode ficar extremamente transtornada durante a gravidez, ter problemas físicos misteriosos, que impedem que a gravidez chegue a seu termo, ou começar a se comportar de modo perturbado ou bizarro imedia­tamente após o nascimento da criança. Alternativamente, o marido, ou algum membro da família extensiva,  pode desenvolver uma en­fermidade  que  coincida  com  o  evento  do  parto.Neste período, quando surge um problema, a “ causa” não po­de ser facilmente determinada,  porque são muitos os diferentes ar­ranjos estabelecidos no sistema familiar, que são revisados com a che­gada da criança. Os jovens casais que consideram seu casamento um teste descobrem  que a separação  se tornou  mais difícil.  Outros  ca­sais, que pensavam estar comprometidos um com o outro, descobrem sentimentos relacionados com a chegada da criança e, pela primeira vez,  a  fragilidade  de  seu  contrato  de  casamento  original.O tipo de jogo que um casal elaborou antes do parto é um jogo íntimo, a dois. Eles aprenderam a lidar um com o outro e descobri­ram modos de resolver muitos assuntos. Com o nascimento de uma criança, eles automaticamente formam um triângulo. Não é um triân­gulo com alguém de fora ou com um membro da família extensiva; ciúmes de um novo tipo podem se desenvolver quando um cônjuge sente que o outro está mais envolvido com a criança do que com ele. Muitas das questões que o casal enfrenta começam a ser tratadas atra­vés da criança, tornando-se ela o bode expiatório e a desculpa para os novos problemas e para antigos problemas não resolvidos. Mari­dos e mulheres à beira da separação podem agora concordar que de­vem permanecer juntos pelo bem da criança, quando poderiam não ter se separado de forma alguma. Esposas descontentes podem decidir que seu estado se deve à criança, ao invés de encarar velhos pro­blemas com o marido.  Por exemplo, a mãe de uma jovem psicótica de dezoito anos certa vez asseverou que a filha sempre estivera entre ela e o marido. Citou, como prova, uma carta que havia escrito quan­do a filha tinha alguns meses de idade, na qual chamava a atenção do marido porque ele e a filha estavam sempre do mesmo lado, con­tra ela. Se uma criança se torna parte do triângulo deste modo, quando tiver idade suficiente para deixar o lar surgirá uma crise, porque o casal se verá frente a frente, sem a filha como estratagema entre eles; questões que não foram resolvidas há anos, antes do nascimento da criança,  são  reativadas.

Em  muitos  casos,  um  casamento  é  precipitado  devido  a  uma gravidez, e o jovem casal não vê a vida comum como uma parceria. O casamento começa e continua como um triângulo até que a crian­ça saia de casa. Com frequência, um casamento forçado por esse mo­tivo não se torna um problema. Em outros casos, a criança é a des­culpa para o casamento e será culpada por todas as dificuldades ma­ritais  e  extramaritais.O nascimento iminente de uma criança representa a reunião de duas famílias e cria avós, tias e tios, dos dois lados.  Um arranjo tão simples,  tal  como  os  acordos  de  visita,  serão  revisados  quando  os avós aparecerem. As duas famílias podem discutir sobre questões co­mo o nome a ser dado à criança, como ela deve ser criada e educada, qual  família influenciará seu  desenvolvimento,  e assim  por  diante. Em geral,  os parentes consideram o casamento temporário até que a chegada da criança força a questão. A possibilidade, ou realidade, de uma criança defeituosa pode levantar dúvidas potenciais sobre to­dos os ramos da família e ser usada como munição numa luta fami­liar.Afastado de suas famílias pela chegada da criança, o jovem ca­sal está também mais entrelaçado no sistema familiar.  Como pais, são agora mais individualizados como adultos e menos crianças eles próprios,  mas  o  filho  os aproxima mais ainda da  rede total  de  pa­rentes, na medida em que velhos elos alteram naturezas e novos elos se  formam.Durante este  período,  quando  surge  sofrimento,  em  geral  ele assume a forma de sintomas e distúrbios em um dos participantes. No entanto, a pessoa que exibe o sofrimento não é necessariamente o foco apropriado de tratamento.  Uma esposa perturbada pode es­tar reagindo a um marido que se sente enredado porque uma criança está no caminho, ou respondendo a uma crise na família extensiva.À medida que o jovem casal sobrevive ao nascimento da crian­ça, ele se torna excessivamente ocupado durante os anos necessários aos  cuidados  dos  bebês.  Cada  novo  parto  modifica  a  natureza  da situação e levanta novas e antigas questões.  O prazer de criar os fi­lhos é, com freqüência, contrabalançado pela tensão gerada pelo con­tínuo  envolvimento  com  problemas  complexos,  que  eles  precisam aprender a resolver por si mesmos, porque, nesta época de mudan­ças, relutam em utilizar os mesmos métodos educacionais de seus pais.É no estágio de cuidar dos  filhos pequenos que  um  problema especial surge para as mulheres.  Ter filhos é algo que elas almejam como uma forma de auto-realização. Mas tomar conta dos bebês pode ser fonte de frustração pessoal. Tendo sido educadas para o dia que se tornariam adultas e seriam capazes de usar suas habilidades espe­

ciais, elas se vêem amputadas da vida adulta e vivendo, de novo, num mundo  de crianças.  O marido,  ao  contrário,  é capaz de participar do mundo de trabalho dos adultos e desfrutar as crianças como uma dimensão a mais em sua vida. A esposa que fica confinada à conver­sação com  as crianças pode também se  sentir  denegrida com  a eti­queta de dona-de-casa e mãe.  Um anseio por uma maior participa­ção  no  mundo  adulto,  para  o  qual  estava  preparada,  pode  fazê-la sentir-se descontente e invejar as atividades do marido.  O casamen­to pode começar a se desgastar à medida que a esposa solicita mais ajuda do marido  para cuidar  dos  filhos  e  mais  atividades  adultas, enquanto ele se sente oprimido pela esposa e pelos filhos e tolhido em  seu trabalho.  Algumas  vezes,  a mãe tentará  exagerar  a impor­tância de criar filhos, encorajando a criança a ter um problema emo­cional,  ao  qual  pode então  devotar  sua  atenção.  A tarefa  do tera­peuta é solucionar o problema da criança,  ajudando a mãe a se se­parar  dela  e  a  encontrar  uma  vida  própria  mais  plena.Apesar das dificuldades que surgem com as crianças pequenas, o período mais comum de crise é a fase escolar.  No passado, quan­do as crianças começavam a se comportar mal  ou relutavam  em ir à escola, o procedimento usual era permitir que permanecessem em casa enquanto iniciavam uma terapia individual, na esperança de que se recuperassem  e,  principalmente,  passassem  a querer  ir à  escola. Entrementes, elas ficavam cada vez mais atrasadas em relação a seus pares. Com a orientação familiar, tornou-se mais comum levar a crian­ça para a escola e tratar a situação global, reconhecendo que o pro­blema poderia estar em casa, na escola, ou em ambos os lugares. Nesta idade, a criança com freqüência funciona mal, em parte devido ao que se passa na complexa organização familiar, mas também porque es­tá se envolvendo mais em atividades fora dela. Conflitos entre os pais sobre como educar crianças se tornam mais manifestos quando seu produto é exibido. O início da fase escolar dá também aos pais a pri­meira oportunidade de enfrentar o fato de que os filhos um dia sai­rão  de  casa  e  os  dois  terão  de  se  defrontar.É neste estágio que a estrutura da família se torna mais visível para o terapeuta consultado devido a um problema com uma crian­ça.  Os  padrões  de  comunicação  na  família  se  tornaram  habituais, e certas estruturas não se adaptam ao envolvimento da criança fora da  família.  Vários tipos  de estruturas infelizes  são  comumente en­contradas,  e todas elas dizem respeito às brechas nas linhas das ge­rações dentro da família. O problema mais usual é um dos pais, co­mumente a mãe,  se alinhar consistentemente com a criança contra o  outro,  em geral  o  pai,  protestando  que este  é muito  duro com  a criança, enquanto ele afirma que ela é muito mole. Neste triângulo,

os pais estão tentando salvar a criança do outro, oferecendo-lhe as­sim a oportunidade de jogar um deles contra o outro. Este triângulo pode ser descrito de vários modos, e uma maneira adequada é perce­ber um dos pais como  “ superenvolvido”  com o  filho.  Em geral,  a mãe,  embora  muito  prestativa,  revela-se  exasperada  em  relação  à criança e frustrada em suas tentativas de lidar com ela. O pai é mais periférico, e, se intervém para ajudar a mãe, ela o ataca e ele se reti­ra,  deixando-a incapaz de lidar efetivamente com  o  filho.  Este pa­drão se repete infindavelmente, impedindo as crianças de amadure­cerem e a mãe de se desembaraçar do cuidado com os filhos e encon­trar uma vida própria mais produtiva. À medida que o padrão con­tinua,  a criança se torna o meio através do qual os pais se comuni­cam sobre questões que não conseguem enfrentar diretamente.  Por exemplo,  se existe uma questão a respeito da masculinidade do pai que não pode ser encarada dentro do casamento,  a mãe pode inda­gar se o filho é afeminado, enquanto o pai pode insistir que o meni­no é suficiente macho. A criança coopera comportando-se de modo feminino para fornecer à mãe um argumento e de modo suficiente­mente masculino para apoiar o pai. O filho aparenta não saber bem a que sexo pertence,  enquanto atua como uma metáfora dentro do triângulo. Fora de casa, o padrão estabelecido é ameaçado, e sinto­mas na criança podem assinalar  a dificuldade da  família em  ultra­passar  este  estágio.Este triângulo pode ocorrer mesmo que os pais estejam divor­ciados,  uma vez que o divórcio legal necessariamente não modifica este tipo de problema. Se uma mulher que está criando seu filho so­zinha o apresenta como um problema,  um terapeuta alerta buscará um ex-marido que ainda esteja envolvido, e seu objetivo será ajudar a família a atravessar o processo de realmente desengajar um mem­bro.Em famílias com um só dos pais,  uma estrutura problemática típica deste estágio  é a avó,  que consistentemente se alia  à  criança contra  a  mãe.  Se  a  mãe  é jovem,  a  avó  geralmente  trata  a  filha  e o  neto  como  se  fossem  irmãos,  e  a  criança é  apanhada  numa  luta entre  a  mãe e  a  avó  através  das  linhas  de  geração.  Isto  é  especial­mente típico em  famílias que vivem  na pobreza.*  Na classe média, a mãe com freqüência se separa do marido após lutar com ele a res­peito  do  filho,  e  a  avó  a  substitui  para  continuar  a  luta.As lutas de geração dentro de uma família em geral se tornam evidentes somente quando a criança atinge a idade de se envolver com a comunidade  fora da  família.  Neste ponto,  os  padrões  familiares*  Salvador  Minuchin et al.,  Families o f the Slums.  Nova  York,  Basic  Books,  1967.

que haviam funcionado com razoável sucesso se quebram, e pede-se a um terapeuta que intervenha para ajudar a família a passar ao pró­ximo estágio. (A abordagem de Erickson para tais problemas é apre­sentada  nos  Capítulos  V  e  VII.)DIFICULDADES  NO  MEIO  DO  CASAMENTOEntre a maioria das espécies animais, uma unidade familiar com­posta de pais e filhos é de breve duração. Tipicamente, os pais pro- criam anualmente, e os jovens vão para o mundo reproduzir sua pró­pria espécie, enquanto os pais começam uma nova ninhada. Os pais humanos são responsáveis pelos filhos durante vários anos e preci­sam continuar ligados a eles mesmo quando deixam de tratá-los co­mo crianças e. passam a tratá-los mais como iguais.  Em última ins­tância, quando os pais envelhecem, os filhos começam a tomar con­ta deles.  Este arranjo é único  e requer  que os membros  da  família se adaptem a mudanças extraordinárias de relacionamento mútuo atra­vés dos anos. À medida que um relacionamento muda dentro da fa­mília,  a  relação  marital  sofre  constantes  revisões.Falar em problema marital é criar uma entidade “ casamento” que negligencia todas as influências externas que a atingem. O limite que traçamos ao redor do casal, ao redor da família nuclear,  ou ao redor do sistema de parentesco,  é arbitrário e deve-se a propósitos de discussão.  Quando  se examina a influência da saúde na  família pobre, ou a intrusão dé uma corporação na vida privada dos execu­tivos de classe média,  torna-se evidente que os problemas  do casal são só parcialmente descritos quando se enfoca o casal.  Se um ho­mem  não  está empregado  e  sua  esposa  recebe  um  seguro  social,  o “problema marital” inclui o modo pelo qual o governo intervém nesse casamento.  Do mesmo  modo,  um  casamento pode ter como  fonte principal de dificuldade a intrusão de uma sogra, o comportamento das  crianças  ou  quaisquer  outros  fatores.  É  importante ter  sempre em mente que a família é um grupo em funcionamento, sujeito a in­fluências externas cambiantes, com uma história, um futuro e está­gios  de desenvolvimento,  assim como com  padrões  habituais  entre os  membros.Na família como a conhecemos hoje, o casal que esteja casado há dez ou quinze anos enfrenta problemas que podem ser descritos em termos do indivíduo, do par marital ou de toda a família.  Nesta época, o marido e a mulher estão chegando aos anos intermediários de  seus ciclos  de vida.  Em  geral,  esse é um  dos  melhores  períodos da vida.  O  marido pode estar desfrutando o  sucesso  no trabalho e a esposa pode  partilhar  este  sucesso  que  ambos  se esforçaram  por

alcançar. A mulher também está mais livre,  pois os filhos a exigem menos, e pode desenvolver talentos e dar continuidade à sua própria carreira. As dificuldades iniciais que o casal possa ter experimenta­do se resolveram com o tempo,  e sua abordagem da vida se abran­dou.  É um período no qual a relação marital está se aprofundando e ampliando, e no qual as relações estáveis com a família extensiva e o círculo de amigos já estão estabelecidas. As dificuldades de cui­dar de crianças pequenas se encerraram e são substituídas pelo pra­zer conjunto de vê-las crescer e  se desenvolver de modos surpreen­dentes.O  clínico    recebe  famílias  neste  estágio  quando  a  vida  não está indo bem. Para muitas famílias, este é um período difícil. Com freqüência o marido atingiu um ponto de sua carreira em que perce­be que não irá realizar süas ambições da juventude.  Seu desaponta­mento pode afetar toda a família, e particularmente seu status com a esposa.  Ou, ao contrário,  o marido pode ter tido mais sucesso do que imaginara e, enquanto desfruta de grande respeito fora do lar, a esposa continua a se relacionar com ele como fazia quando ele era menos importante, com conseqüentes ressentimentos e conflitos. Um dos inevitáveis dilemas humanos é que o  homem,  quando atinge a meia-idade e adquire status e posição,  se torna  mais  atraente para as mulheres jovens, enquanto a esposa, mais dependente da aparên­cia  física,  se  sente  menos  atraente  para  os  homens.Quando todas as crianças  tiverem ido para a escola,  a esposa sentirá que precisa fazer alterações em sua vida. O aumento do lazer força-a a considerar suas ambições anteriores em termos de carrei­ra,  por exemplo,  e ela pode se sentir insegura quanto a suas habili­dades. A premissa cultural de que ser dona-de-casa e mãe não é sufi­ciente se torna um problema cada vez maior à medida que as crian­ças precisam menos dela. Em certos momentos,  ela pode sentir que sua vida está sendo desperdiçada em casa e que seu status está decli­nando no momento exato em que o marido está se sentindo mais im­portante.Nesses anos intermediários, o casal já atravessou muitos confli­tos e elaborou modos muito rígidos e repetitivos de relacionamento. Eles mantiveram a estabilidade da família através de padrões compli­cados de intercâmbio para resolver problemas e para evitar as solu­ções. À medida que os filhos crescem e a família sofre mudanças, os padrões podem se mostrar inadequados e surge uma crise. Algumas vezes,  há um acúmulo de problemas de comportamento,  tais como bebida ou violência, que ultrapassa o ponto tolerável. Um ou os dois esposos podem sentir que, para a vida melhorar um pouco, eles preci­sam interromper a relação agora,  antes que fiquem muito velhos.

Os  anos  intermediários  podem  forçar  um  casal  a  tomar  uma decisão a respeito de continuarem juntos ou tomarem caminhos se­parados. Este período, quando os filhos permanecem menos em ca­sa, força também os pais a perceberem que no final eles irão mesmo embora e os dois terão que se defrontar.  Em muitos casos, concor­daram em ficar juntos pelo bem dos filhos e, quando percebem estar se aproximando o momento da partida,  entram em  crise conjugal.Várias tensões maritais e divórcios podem ocorrer nestes anos intermediários, embora o casal tenha sobrevivido a muitas crises an­teriores. Muitos outros períodos de tensão familiar ocorrem quando alguém entra ou sai da família. Nos anos intermediários, o conjunto não está mudando;  mas num certo sentido está, porque este é o pe­ríodo em que os filhos estão deixando de ser crianças e se tornando jovens adultos. O que é conhecido como crise de adolescência pode ser visto como  uma luta dentro do  sistema familiar para manter  o arranjo  hierárquico  anterior.  Por  exemplo,  uma  mãe  pode  ter  de­senvolvido maneiras de lidar com sua filha enquanto criança e mo­dos de lidar com a competição das mulheres; quando a filha cresce, ela se torna uma competidora,  e a mãe não  consegue se relacionar com ela de maneira consistente. O pai, apanhado entre as duas, po­de sentir que a experiência é atordoante. Uma alteração similar ocorre conforme o filho cresce e se torna rapaz, e o pai deve lidar com ele como filho,  mas também como homem adulto.  O  filho ou um dos pais  pode apresentar  sintomas  como  uma maneira  de  estabilizar  o sistema,  mas talvez,  com  mais  freqüência do  que em outros  perío­dos, o surgimento de problemas é reconhecidamente o tormento fa­miliar.Resolver um problema conjugal no estágio intermediário do ca­samento é, em geral, mais difícil do que durante os anos iniciais, quan­do o jovem casal ainda vive um estado de instabilidade e elabora no­vos padrões.  No estágio intermediário,  os padrões estão estabeleci­dos e são costumeiros. Com freqüência, o casal tentou vários modos de reconciliar as diferenças e retornou aos padrões antigos a despei­to do sofrimento.  Como um dos padrões típicos para estabilizar  o casamento é o casal se comunicar através dos filhos, surge uma crise quando  eles  saem  de  casa e  o  casal  novamente  fica  face  a  face.

DESEMBARAÇANDO  PAIS E  FILHOS

Parece que toda a família entra num período de crise quando os filhos começam a ir embora, e as conseqüências são várias. Com freqüência,  o casamento é atirado numa turbulência que progressi­vamente  se  aquieta  quando  os  filhos  partem  e  os  pais  elaboram  o

relacionamento a dois. Eles conseguem resolver seus conflitos e per­mitir que os filhos escolham seus parceiros e carreiras, fazendo a tran­sição para se tornarem avós.  Em famílias onde há somente um dos pais, o afastamento do filho pode ser sentido como o início de uma velhice solitária, mas a perda precisa ser vivida e novos interesses en­contrados. Ultrapassar este período, ou não, depende, em alguma me­dida,  da  gravidade  que  ele  representa  para  os  pais  e,  em  alguma medida,  de como um profissional intervenha no momento crucial.Em muitas culturas,  a separação entre filhos e pais é assistida por uma cerimônia que define a criança como adulto recém-criado. Esses ritos de iniciação fornecem à criança um novo status e exigem que os pais as tratem de modo diferente a partir de então. Na classe média americana, não há uma demarcação tão clara;  a cultura não tem uma maneira de anunciar que o adolescente é agora um adulto individualizado. A formatura escolar serve parcialmente a este pro­pósito,  mas  a  graduação  do  segundo  grau  é  em  geral  somente  um passo rumo à universidade, que exige um suporte parental contínuo. Mesmo o casamento,  em casos onde os pais continuam a financiar o  casal,  não  define  claramente  a  separação,  nem  oferece um  com­pleto  cerimonial  de  afastamento.Algumas vezes a crise entre os pais surge quando o filho mais velho  deixa o lar.  Em  outras  famílias,  o distúrbio parece tornar-se pior progressivamente, à medida que cada filho vai embora, enquanto em outras isto ocorre na hora em que o mais novo se prepara para partir.  Muitas  vezes,  pais  que  observaram  seus  filhos  partir,  um  a um, sem dificuldades são repentinamente enredados numa crise, quan­do  um  deles  atinge  a  idade  de  sair  de  casa.  Em  tais  casos,  o  filho foi de especial importância para o casamento. Talvez ele seja aquele através de quem os pais conduziam a maior parte da comunicação mútua, ou aquele que mais lhes dava trabalho e que os uniu na preo­cupação  comum  e  no  cuidado  com  ele.Uma dificuldade marital que pode emergir neste período é os pais  descobrirem  que  não têm  nada  a  dizer  um  ao  outro  e  nada  a partilhar.  Eles  não  conversaram  sobre  nada  a  não  ser  sobre  os  fi­lhos.  Algumas vezes,  o  casal volta a discutir  questões  que  discutia antes de ter filhos.  Como esses assuntos não foram resolvidos, mas meramente deixados  de lado  com  a  chegada  dos  filhos,  eles  agora surgem de novo. Com freqüência, o conflito conduz à separação ou ao divórcio — um evento que pode parecer trágico após tantos anos de casamento. Também não é raro que, se o conflito for grave, haja ameaças  de  assassinato  e tentativas  de  suicídio.Não parece acidental que as pessoas em geral enlouqueçam — ou se tornem esquizofrênicas — por volta dos vinte anos,  idade na

qual se espera que os filhos abandonem a casa e a família. A esqui­zofrenia e outros distúrbios graves podem ser observados como um modo extremo de tentar solucionar o que ocorre na família neste es­tágio da vida. Quando filhos e pais não toleram se separar, a amea­ça pode ser abortada se algo de errado acontecer ao filho. Ao desen­volver um problema que o incapacite socialmente, o filho permane­ce dentro do sistema familiar. Os pais podem continuar a partilhá-lo como fonte de preocupação e desacordo, e sentem não ser necessá­rio lidar um com o outro sem ele. O filho pode continuar a partilhar da luta triangular com os pais,  oferecendo a si mesmo, e a eles, sua “ doença mental”  como  uma desculpa para todas  as dificuldades.Quando os pais trazem um adolescente ao terapeuta como um problema,  este pode centrar a terapia nele,  submetê-lo a um trata­mento individual ou hospitalizá-lo. Se isto for feito, os pais parecem mais normais e preocupados e o filho manifesta um comportamen­to mais extremado.  O que o especialista fez foi cristalizar a família nesse estágio de desenvolvimento,  rotulando e tratando  o  filho co­mo “ paciente” . Os pais não precisam resolver seus conflitos mútuos e seguem para o próximo estágio marital;  e o filho não tem que se mover rumo a relações mais íntimas fora da família. Uma vez acer­tado este arranjo, a situação fica estável até que ele melhore.  Se ele se torna mais normal e ameaça seriamente se casar,  ou consegue se sustentar, a família mais uma vez entra no estágio dos filhos que dei­xam o lar e o conflito e a dimensão ressurgem.  A resposta dos pais a  esta  nova  crise  é  suspender  o  tratamento  do  filho  ou  voltar  a hospitalizá-lo como caso reincidente,  e,  uma vez mais,  a família se estabiliza. À medida que este processo se repete, o filho se torna um doente “ crônico” . Com freqüência, o terapeuta encara o problema como uma questão  filho versus pais e toma o partido do  filho viti- mizado, ocasionando mais dificuldades para a família. Com um ponto de vista semelhante,  o médico do hospital algumas vezes aconselha o jovem a deixar a família e nunca mais tornar a vê-la.  Com muita freqüência esta abordagem fracassa; o filho tem um colapso e conti­nua  sua  carreira  de  enfermo  crônico.Embora não  saibamos muito a respeito de como o  filho se li­berta dos pais e sai de casa,  parece que ele sairia perdendo se fosse para qualquer um dos dois extremos. Se deixar a família e jurar nunca mais vê-la,  sua vida irá mal.  Se,  nesta cultura,  ficar com  os  pais  e deixar que eles dirijam sua vida, ela também irá mal. Ele deve se se­parar da família, mas permanecer envolvido com ela. Este equilíbrio é o que muitas famílias conseguem e o que os terapeutas familiares contemporâneos  buscam.

O terapeuta familiar a quem um adolescente é apresentado co­mo um caso não vê o filho como o problema, mas sim toda a situa­ção familiar. Seu objetivo não é promover a compreensão e a união entre  o jovem  e a  família,  mas  funcionar como uma cerimônia de iniciação, lidando com o problema de tal modo que o filho entre no mundo adulto e os pais aprendam a tratá-lo, assim como um ao ou­tro,  de maneira diferente.  Se o terapeuta tira o jovem da família e resolve os conflitos que surgiram com a separação, o filho se liberta dos  sintomas  e  fica  livre  para  construir  seu  próprio  caminho.Quando o jovem deixa o lar e começa a estabelecer uma famí­lia própria,  os  pais  precisam  atravessar a maior  mudança em  suas vidas,  que é  se tornarem  avós.  Geralmente,  eles têm  pouca ou  ne­nhuma preparação para dar este passo, principalmente se os rituais de casamento adequados não foram efetuados pelos filhos. Eles pre­cisam aprender a se tornarem bons avós, elaborar as regras de parti­cipação na vida dos  filhos e se relacionar somente com o outro em casa.  Com freqüência,  neste período precisam também lidar com a perda de  seus  próprios  pais  e  a  dor  que  a  acompanha.Um dos aspectos da família a respeito do qual estamos apren­dendo é o processo  natural pelo qual as dificuldades  se tornam re­médios quando surgem. Um exemplo é a chegada de um neto. Certa vez, uma mãe afirmou, como piada, que continuava a ter filhos pa­ra não estragar o caçula.  Com freqüência, as mães se envolvem de­mais com o filho mais moço e têm dificuldades em  se apartar dele à medida que ele caminha para uma vida mais independente. Se, nesse ponto,  um  filho  mais velho  produzir  um  neto,  a  chegada  da  nova criança pode liberar  a mãe de seu filho mais moço e envolvê-la no novo estágio de se tornar avó. Quando se pensa no processo natural dessa maneira, percebe-se a importância de manter o envolvimento entre as  gerações.  Se  os jovens virarem  as  costas  aos  pais,  privam seus filhos dos avós e também tornam mais difícil para os pais ultra­passar um estágio de suas vidas.  Cada geração depende de todas as outras gerações de uma maneira complexa, que estamos começando a apreender à medida que observamos a disrupção da família nesta época de mudanças.  (A concepção de Erickson sobre a importância da continuidade da vida familiar fica mais evidente na maneira pela qual ele resolve problemas de engajamento e desengajamento entre os jovens  e  seus  pais,  descritos  no  Capítulo  VIII).APOSENTADORIA E  VELHICEQuando um casal foi bem-sucedido na liberação dos filhos, de modo  a  se  envolver  menos  com  eles,  em  geral  parece  entrar  num período de relativa harmonia,  que pode continuar com a aposenta­doria do marido. Algumas vezes, no entanto, a aposentadoria pode complicar o problema,  pois o  casal tem  de conviver vinte e quatro horas por dia. Não é incomum uma esposa desenvolver algum sinto­ma incapacitante na época da aposentadoria do marido, e o terapeuta deve criar condições para que o casal entre num relacionamento ami­gável,  ao  invés  de tratar  o  problema  como  se  este    envolvesse a esposa.Embora os problemas emocionais individuais das pessoas mais velhas  possam  ter  causas  diversas,  uma  primeira  possibilidade  é  a proteção de alguma outra pessoa. Por exemplo, quando uma esposa desenvolvia uma inabilidade para abrir os olhos, o problema era diag­nosticado como histeria. O enfoque recaía sobre ela e sobre seu está­gio de vida.  De um ponto de vista familiar, sua inabilidade poderia ser vista como um modo de apoiar o marido  durante uma crise.  O problema surgiu na época da aposentadoria do marido, quando ele foi afastado de uma vida ativa, útil, em direção a uma situação que, a seu modo de ver,  eqüivalia a ser colocado numa concha sem fun­ção  útil.  Quando a esposa desenvolveu  seu problema,  ele passou a ter algo importante para fazer — ajudá-la a se recuperar.  Ele a le­vou de médico em médico, organizou a vida diária de modo que ela pudesse  fazer  alguma  coisa  apesar  de  ser incapaz  de  enxergar e se tornou extremamente protetor. Seu envolvimento no problema se tor­nou evidente quando a esposa melhorou e ele começou a ficar depri­mido, alegrando-se somente quando ela teve uma recaída. A função de ajudar a solucionar problemas, aparente através da vida familiar, é igualmente importante quando um casal tem somente um ao outro em  seus  anos  de  declínio. No devido tempo,  sem  dúvida,  um  dos  parceiros  morre,  dei­xando o outro sozinho, tendo que encontrar um modo de se envol­ver com a família. Algumas vezes, uma pessoa mais velha pode en­contrar uma função útil; outras,  ela se torna meramente supérflua à medida que o tempo passa, e os velhos são encarados como irrele­vantes pela geração mais jovem.  Neste estágio, a família deve enca­rar um difícil problema: ou cuida dos idosos ou os expulsa para um lar  onde  outros  cuidarão  dele.  Este  é um  ponto  de  crise,  que  com frequência não é manejado com facilidade. Ainda assim, o modo co­mo os mais moços cuidam dos mais velhos torna-se o modelo de como serão tratados quando também  ficarem velhos,  de acordo com um ciclo  familiar  sem  fim.

 

Livro: Terapia não convencional – Jay Haley – Capitulo III.

Editora: Summus

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