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Agenda

  • Laboratório das Emoções

    Dia 15 de dezembro de 9h às 13h em Icaraí - Niterói. Faça sua inscrição.

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  • CURSO DE HABILITAÇÃO - Hipnose Moderna: Abordagem de Milton H. Erickson

    Início em 2019. Participe!

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  • Laboratório das emoções

    Um sábado ao mês de setembro de dezembro. Icaraí - Niterói.

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  • Palestra Um novo olhar no momento de Crise

    17/08/2018. Das 19h às 21h Local: Rua Mem de Sá, nº 61. Icaraí, Niterói - RJ

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  • Workshop Vivencial - "O EU SOU, despertando a força interior"

    Uma troca de experiência sobre valores espirituais e os limites de nós como humanos. 15 de Abril em Niterói. Entrada Colaborativa

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  • GRUPO DE CRESCIMENTO

    19/09 à 21/11/18 – 19h às 21h. Participe!

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  • WORKSHOP "MEU NOME, SOBRENOME E MEUS ANTEPASSADOS"

    24 de fevereiro de 2018 em Niterói.

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  • MEDITAÇÃO ERICKSONIANA

    Às terças-feiras, em março, com dois grupos, de 16h às 14h45 e 19h às 20h45 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • TARDES DE CINEMA com a 3ª idade - Divertidamente - Trabalhando as Emoções

    18 de outubro de 2017, das 15h às 18h - Facilitadoras: Suely Dessandre e Angélica Glória. Direção geral: Regina Nohra

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  • TARDES DE CINEMA com a 3ª idade

    27 de setembro de 2017 - Facilitadoras: Ana Zagne e Suely Engelhard. Direção geral: Regina Nohra

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  • OFICINA GRATUITA NA UFF - A utilização da Hipnose Moderna na atualidade

    18 de setembro de 2017, às 19h - Facilitadora: Regina Nohra

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  • WORKSHOP GRATUITO VIVENCIAL - Meu nome, sobrenome e meus antepassados

    16 de setembro de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • TARDES DE CINEMA com a 3ª idade

    23 de agosto de 2017 - Facilitadora: Fernanda Pessanha. Direção geral: Regina Nohra

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  • PALESTRA GRATUITA - Cristais, instrumentos do despertar humano

    15 de julho de 2017 - Facilitadora: Maria Cecília de Carvalho

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  • GRUPO DE CRESCIMENTO - Participação gratuita no primeiro encontro! Faça sua inscrição!

    21 de junho de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • GRUPO DE CRESCIMENTO - Participe gratuitamente do primeiro encontro! Vagas limitadas, inscreva-se já!

    15 de maio de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • EVENTOS com Regina Nohra em Niterói

    Conheça nossas atividades com Regina Nohra, em Niterói, em maio e junho de 2017

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  • LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADE DAS EMOÇÕES - Responsabilidade Consciente (Aracaju)

    10 de junho de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • CURSO de Auto Hipnose

    20 de maio de 2017 - Facilitador: Raphael Luz

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  • GRUPO DE CRESCIMENTO

    15 de maio a 30 de julho de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • MEDITAÇÃO ERICKSONIANA (encontros semanais, às terças-feiras)

    04 de abril de 2017 (início) - Facilitadora: Regina Nohra

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  • PALESTRA GRATUITA - Empoderamento Feminino

    25 de março de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • PALESTRA GRATUITA - Autoliderança & Inteligência Emocional

    11 de março de 2017 - Facilitadora: Rosa Castro

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  • PALESTRA GRATUITA - Como criar um futuro irresistível agora?

    16 de fevereiro de 2017 - Facilitadora: Mônica Panasco

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  • PALESTRA GRATUITA - Manejo do estresse: Da cabeça quente à mente iluminada

    06 de fevereiro de 2017 - Facilidarores: Juliana Viard e Júlio Cesar Quaresma.

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  • LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADE DAS EMOÇÕES

    04 de fevereiro de 2017 - Facilitadora: Regina Nohra

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  • WORKSHOP - Metas 2017: Transformando sonhos em resultados extraordinários

    07 de janeiro de 2017 - Facilitador: Emerson Pacheco

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  • Curso Intensivo de Formação Hipnose Natural: Abordagem de Milton H. Erickson

    Transmitir vida e obra do Dr. Milton H. Erickson, pai da hipnose natural e criador das técnicas Ericksonianas. Difundir os conhecimentos científicos da Hipnose Natural Ericksoniana. Capacitar os alunos para utilizar os princípios técnicos da Hipnose Natural Ericksoniana que é um instrumento eficaz para lidar com as manifestações e sintomas dos pacientes nos tratamentos psicoterápicos, médicos, fisioterápicos e odontológicos. Faça seu cadastro e receba mais informações.

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Artigos e Textos

Revisão de Caráter do Jovem adulto (10/2018)

Jay Haley

Livro: Terapia Não Convencional – Jay Haley

Quando o problema de um jovem é tão grave que ele se afasta de envolvimentos humanos, Erickson tenta uma revisão importante de sua natureza. Seu método assemelha-se bastante ao que utiliza na terapia breve, mas a intervenção é mais abrangente. Em geral, quando

Erickson fica meses, ou anos, com alguém em terapia, ele não fazendo entrevistas diárias ou mensais com a pessoa. Pode recebê-la algumas vezes, interromper as sessões e novamente tornar a vê-la durante certo período. Ele gosta de iniciar mudanças que podem continuar sem seu constante envolvimento. Em tais casos, a duração do tratamento pode ser de vários anos, mas o número de sessões terapêuticas é relativamente pequeno comparado com outros tipos de terapias de longa duração. Quando um jovem recusa todos os envolvimentos sociais, isto

pode ser causado por uma série de razões. No primeiro caso que será narrado aqui, uma moça recusa o envolvimento com o mundo devido ao que considera um defeito físico grave. A preocupação coma aparência física é típica da adolescência, embora raramente seja tão intensa  como neste caso. Comumente, nesta época, os jovens se comparam a um ideal cultural e se descobrem deficientes. Tipicamente, superam estas preocupações como parte da atividade de namoro normal. As moças se julgam atraentes quando os rapazes as acham atraentes. No entanto, em certas ocasiões, uma jovem pode ficar tão preocupada com o que considera uma anormalidade física que passa a evitar as situações sociais que poderiam ajudá-la a resolver a dificuldade. Algumas vezes, há um defeito físico real; outras, o que os outros considerariam uma pequena falha, mas que para ela se torna extremamente importante. Pode-se iniciar um círculo vicioso, no qual a jovem se afasta cada vez mais das outras pessoas, e, ao fazê-lo, fica cada vez mais preocupada com seu defeito físico. Porque, não tendo muitos outros interesses, se afasta mais ainda das pessoas. Com freqüência, em tais casos, qualquer renovação de confiança por parte dos pais é descartada pela jovem como tendo motivações benevolentes e, portanto, tendenciosas. Algumas vezes, a jovem desenvolve este tipo de preocupação devido a um problema familiar; por exemplo, ela pode negar seus atrativos físicos como uma maneira de lidar com uma mãe ciumenta. Outras vezes, uma jovem que está desabrochando estabelece um conflito entre a mãe e o pai, na medida em que a mãe reage a ela como competidora ou o pai a usa contra a esposa. Em outras ocasiões, a preocupação com um defeito físico imaginário, ou real, parece simplesmente acontecer, e nenhum argumento lógico consegue dissuadir a jovem de que ela não tem nenhum atrativo para a relação humana. Milton Erickson, além de ter muitos anos de experiência profissional com jovens, teve também a experiência pessoal de criar oito filhos. Certa vez, sua esposa fez uma estimativa e constatou que eles teriam adolescentes em casa durante trinta anos. Erickson reflete sobre os problemas dos jovens dentro de um quadro de conhecimento de suas sensibilidades. Uma moça de dezessete anos começou a não querer sair de casa na época em que deveria ir para a faculdade. Recusava-se a fazer contatos com o mundo porque seus seios não tinham se desenvolvido, embora de resto fosse normal fisicamente. Ela havia recebido vasto tratamento médico, inclusive terapia endócrina experimental, sem resultados. No momento, devido à sua crescente perturbação emocional,

a possibilidade de internação num hospital mental estava sendo considerada. Erickson foi à sua casa para tratá-la e a encontrou escondida atrás do sofá. Quando foi descoberta, ela correu para trás do piano. Só quando ficou sabendo que não receberia mais ajuda médica, e portanto “ nenhum outro remédio ou injeção” , consentiu em conversar com Erickson. Ele começou a trabalhar com a jovem e descobriu que ela era um bom sujeito para a hipnose. Ele relata: Durante a primeira entrevista, que durou várias horas, conversei com ela sobre os componentes ativos de sua personalidade, tanto em estado de transe quanto fora dele. Descobri que tinha um senso de humor travesso, um interesse em ser dramática, e então usei isto em meu lance inicial. Lembrei-lhe uma antiga canção sobre o dedão do pé estar ligado ao osso do pé, e assim por diante. Ela ficou interessada, e eu lhe ofereci uma paráfrase sobre o sistema endócrino, dizendo que assim como o osso do pé se ligava ao osso do tornozelo, assim também o “ osso glândula supra-renal” se ligava ao “ osso tiróide” , cada um “ apoiando e ajudando” o outro. A seguir, ofereci-lhe sugestões para sentir calor, frio, para sentir sua face desconfortavelmente quente, para sentir-se cansada, repousada e confortável. Ela respondeu bem a todas essas sugestões; então, sugeri-lhe que sentisse uma coceira insuportável em cima do

pé. Disse-lhe para mandar embora esta coceira insuportável, mas não para as profundezas mais baixas. Deveria mandar a coceira para a “nulidade destituída” de seus seios, uma destinação adequada para uma coceira tão intolerável. Contudo, como punição extra para a coceira, esta estaria sempre presente, nem agradável nem desagradável, perceptível apenas graças a uma sensação indefinida, o que tornaria a jovem continuamente cônscia da área dos seios. Esta série de sugestões tinha o propósito múltiplo de ir de encontro a sua ambivalência, confundi-la e intrigá-la, estimular seu senso de humor, ir de encontro à sua necessidade de auto-agressão e autodepreciação e, ao mesmo tempo, fazer tudo isto sem aumentar seu sofrimento. Tudo foi feito de modo tão indireto que ela nada podia fazer, a não ser aceitar e responder às sugestões.

Propus que em cada sessão terapêutica ela se visualizasse mentalmente na situação mais embaraçosa que conseguisse imaginar. Esta situação, não necessariamente a mesma em todas as entrevistas, sempre envolveria seus seios, e ela sentiria o embaraço com grande intensidade, primeiro em seu rosto, e depois, com um sentimento de alívio, ela sentiria o peso do embaraço mover-se para baixo e vir repousar em seus seios. Forneci-lhe ainda uma sugestão pós-hipnótica: sempre que estivesse sozinha, ela regularmente aproveitaria para pensar sobre as sessões terapêuticas, e então, imediatamente, desenvolveria um intenso sentimento de embaraço, o qual prontamente “ acomodaria” em seus seios de maneira muito desconcertante, mas plenamente agradável. O esquema lógico dessas sugestões era simples e direto. Era meramente um esforço para transferir para seus seios, mas de maneira agradável e construtiva, reações psicossomáticas infelizes e destrutivas, tal como o “ terrível” e doloroso nó em meu estômago quando surge a mais leve preocupação. As instruções hipnóticas finais determinavam que ela se divertisse muito no colégio. Ao fazer as sugestões desse modo, efetivamente eu desviava qualquer discussão sobre sua recusa de ir à faculdade. Expliquei-lhe que, além de manejar adequadamente o trabalho acadêmico, ela poderia divertir-se e enganar suas colegas de modo muito divertido com o uso discreto de malhas justas e de seios postiços de tamanhos diferentes, algumas vezes em pares de dois números diferentes. Ela foi também instruída a carregar pares de vários tamanhos em sua bolsa caso decidisse fazer uma inesperada mudança em sua aparência. Ou, caso um de seus acompanhantes se tornasse muito ousado, ela poderia oferecer-lhe uma escolha. Assim, suas atividades travessas não lhe trariam dificuldades. Eu a entrevistei pela primeira vez em meados de agosto e marquei para ela encontros semanais. Aos primeiros, ela compareceu, e utilizei-os para reiterar e reforçar as instruções previamente dadas e para me assegurar de sua compreensão adequada e de sua cooperação. Depois disto, ela manteve, com minha permissão, três ou quatro encontros in absentia. Isto é, ela se isolava pelo menos durante uma hora, e desenvolvia, em resposta às sugestões póshipnóticas, um estado de transe de médio a profundo. Neste estado, ela revisava sistemática e extensivamente todas as instruções anteriores, as discussões e “qualquer outra coisa” que pudesse surgir em sua mente. Não fiz nenhum esforço para determinar a natureza dessas “outras coisas” , nem ela parecia estar desejosa em fornecer qualquer informação, a não ser contar que havia pensado numa série de outros tópicos. Às outras entrevistas ela compareceu pessoalmente; algumas vezes, pedia informações; outras, que eu a fizesse entrar em transe; mas quase sempre solicitava instruções para “continuar indo”. Ocasionalmente, descrevia com um grande divertimento as reações dos amigos aos seus seios postiços. Ela entrou para a faculdade em setembro, adaptou-se bem, recebeu honras de caloura e se destacou nas atividades extracurriculares. Durante os dois últimos meses de sua terapia, suas visitas estavam ao nível de encontros sociais. Em maio, no entanto, ela entrou usando um suéter e declarou, com extremo embaraço: “Não estou usando postiços. Meus seios cresceram. São tamanho 44. Agora, diga-lhes para pararem de crescer. Eu já estou satisfeita” . A meu pedido, passou por um completo exame clínico, com especial recomendação quanto aos seios. Um relatório foi-me enviado, e ela estava fisicamente bem sob todos os aspectos. Sua carreira universitária era um sucesso, e os eventos subseqüentes são inteiramente satisfatórios. Não sei se a hipnoterapia teve ou não influência sobre o crescimento de seus seios. É bem possível que ele tenha resultado de um processo de crescimento atrasado. Pode ter ocorrido como resultado de todos os remédios que tomara. Ou pode ter sido um resultado combinado de todos esses fatores, favoravelmente influenciados por seu estado emocional alterado. Mas, em todo caso, ela entrou para a universidade e começou a desfrutar a vida, ao invés de prosseguir com seus padrões de recusa anteriores.

Uma das características de Erickson é sua disposição para ser flexível em todos os aspectos de sua terapia. Não só está disposto a entrevistar pacientes em seu consultório, em suas casas ou locais de trabalho, mas também se dispõe a fazer sessões curtas ou entrevistas que duram várias horas. Ele pode usar hipnose ou não. Ele envolverá todos os membros da família em certos momentos e não o fará em outros. Como no caso acima, também se dispõe a ter sessões na forma de ensejos sociais. Certa feita, um problema mais grave apresentou-se a Erickson. Uma mulher de vinte e um anos lhe telefonou pedindo ajuda, dizendo ter certeza de que ele não a receberia. Quando chegou ao consultório, disse: “É como eu lhe disse, agora vou embora. Meu pai está morto, minha mãe está morta, minha irmã está morta, e isto é tudo

que me resta” . Erickson abordou o problema da seguinte maneira: Eu pedi com insistência que se sentasse, e, após pensar rapidamente, percebi que a única maneira possível de me comunicar com ela era através da dureza e da brutalidade. Teria que usar de brutalidade para convencê-la de minha sinceridade. Ela interpretaria mal qualquer amabilidade e não conseguiria acreditar na linguagem cortês. Teria que convencê-la totalmente de que a compreendia e reconhecia

seu problema, e que não tinha medo de falar aberta, livremente, sem nenhuma emoção e com franqueza. Retomei sua história resumidamente e, a seguir, fiz as duas perguntas importantes: “Qual é sua altura e seu peso?” . Com um olhar de sofrimento extremo, ela respondeu: “Tenho um metro e sessenta. Peso entre noventa e noventa e cinco quilos. Sou uma bobalhona gorda

comum. Ninguém olharia para mim, a não ser com repulsa”. Este comentário me ofereceu uma abertura conveniente, e eu lhe disse: “Você realmente não contou a verdade. Vou falar claramente de modo que ficará sabendo como é e compreenderá que conheço você. Então acreditará, realmente acreditará, no que tenho a lhe dizer. Você não é uma bobalhona gorda comum repulsiva. Você é o barril de gordura mais gordo, sem graça, repulsivamente horrendo

que já vi, e é aterrador olhar para você. Você já cursou o primeiro grau. Conhece alguns fatos da vida. Ainda assim, aqui está, com seu metro e pouco de altura, pesando entre noventa e noventa e cinco quilos. Você tem o rosto mais sem graça que já vi. Seu nariz foi simplesmente amassado em sua cara. Seus dentes são tortos. Seu maxilar inferior não se encaixa no superior. Seu rosto é insignificantemente disperso. Sua testa é chocantemente baixa. Nem mesmo seu cabelo está penteado decentemente. E este vestido que está usando — bolinhas, milhões, bilhões delas. Você não tem gosto nem para se vestir. Seus pés derramam-se pelas beiradas dos sapatos. Para ser curto e grosso: você é uma confusão medonha. Mas precisa mesmo de ajuda. Estou disposto a lhe dar esta ajuda. Penso que sabe que não hesitarei em dizer a verdade. Você precisa saber a verdade a seu respeito antes mesmo de poder aprender coisas necessárias para se ajudar. Mas não pense que não pode agüentar. Por que veio me ver?” . Ela respondeu: “ Pensei que talvez pudesse ser hipnotizada para conseguir perder peso” . Respondi: “Talvez consiga aprender a entrar em transe hipnótico. Você é suficientemente inteligente para ter se graduado no segundo grau, e talvez seja inteligente o suficiente para aprender a entrar no estado hipnótico. Será uma oportunidade para

eu lhe dizer algumas outras coisas descorteses. Coisas que acredito que não suportaria ouvir se estivesse desperta. Mas no estado de transe conseguirá escutar. Pode compreender. Fazer algo. Não muito, com certeza, porque você está numa situação horrivelmente desvantajosa. Mas quero que entre em transe. Quero que faça tudo o que eu lhe ordenar, porque o fato de você ter devorado os alimentos para ficar parecendo um balde de lixo cheio demais demonstra que precisa

aprender algo para não ser tão ofensiva aos olhos humanos. Agora que sabe que posso lhe dizer a verdade, feche os olhos e entre emtranse profundo. Não perca tempo, assim como não perde tempo em fazer de si mesma uma coisa repulsiva de se olhar. Entre completamente num profundo transe hipnótico. Não pense em nada, não sinta nada, não faça nada, não escute nada a não ser minha voz. Você entenderá o que digo — e ficará contente por eu me dispor a falar com você. Há muitas verdades que quero lhe dizer. Você não conseguiria encará-las em estado desperto. Portanto, durma profundamente, num estado hipnótico profundo. Não escute nada exceto minha

voz, não enxergue nada, não pense em nada, exceto naquilo que quero que pense. Não faça nada, a não ser o que lhe digo para fazer. Seja apenas um autômato impotente. Está fazendo isto? Balance a cabeça e faça exatamente o que lhe ordeno, porque sabe que lhe direi a verdade. A primeira coisa que farei é fazer com que — ou melhor, ordenar a você — conte certos fatos a seu respeito. Você pode falar, embora esteja em transe profundo. Responda a cada pergunta de maneira simples, mas informativa. O que há de importante sobre seu pai?”. Sua resposta foi: “Ele me odiava. Era um bêbado. Vivíamos em guerra. Ele costumava me chutar. Isto é tudo que lembro de meu pai. Bêbado, batendo em mim, me chutando, me odiando” . “ E sua mãe?” . “Era igual, mas morreu primeiro. Ela me odiava ainda mais do que meu pai. Me tratava ainda pior do que ele. Só me mandaram ao ginásio porque sabiam que eu odiava a escola. Tudo o que eu podia fazer durante o ginásio era estudar. Eles me fizeram morar na garagem com minha irmã. Ela nasceu deficiente. Era pequena e gorda. Tinha a bexiga do lado de fora do corpo. Estava sempre doente.

Tinha uma doença dos rins. Nós nos amávamos. Só tínhamos uma à outra para amar. Quando ela morreu da doença renal, eles disseram: ‘Ótimo’. Não me deixaram ir ao enterro. Apenas enterraram a única coisa que eu amava. Eu era uma caloura no ginásio. No ano seguinte, minha mãe se matou de tanto beber. E meu pai se casou com uma mulher pior do que minha mãe. Ela não me deixava entrar em casa. Trazia um mingau para a garagem e me fazia comer. Dizia que eu podia me consumir até morrer. Que já iria tarde. Era uma bêbada como minha mãe. A assistente social também não gostava de mim, mas me encaminhou para fazer alguns exames médicos. Os médicos não gostavam de me tocar. Agora minha madrasta e minha irmã estão mortas. O seguro social me mandou procurar um emprego. Consegui um, onde tenho que esfregar o chão. Os homens do lugar caçoam de mim. Eles oferecem dinheiro uns aos outros para ter uma relação comigo, mas ninguém aceita. Não sirvo para nada. Mas gostaria de viver. Tenho onde morar. Um barracão velho. Não ganho muito — como papa de farinha de milho e batatas, ou algo assim. Pensei que talvez pudesse me hipnotizar e fazer algo por mim. Mas acho que não vai adiantar nada.” Da maneira mais insensível e peremptória perguntei: “ Sabe o que é uma biblioteca? Quero que vá a uma biblioteca e retire livros de antropologia. Quero que olhe todos os tipos chocantes de mulheres com que os homens se casam. Há fotografias delas nos livros da biblioteca. Selvagens primitivos se casarão com coisas que têm uma aparência pior do que a sua. Olhe um livro atrás do outro e fique curiosa. Então leia livros que narrem como mulheres e homens se desfiguram,

fazem tatuagens, se mutilam para parecerem ainda mais horrorosos. Passe a maior parte do tempo que puder na biblioteca. Faça isto direito e volte em duas semanas” . Eu a despertei do transe com essas sugestões pós-hipnóticas, e ela saiu do consultório da mesma maneira acachapada que tinha entrado. Voltou duas semanas mais tarde. Eu lhe disse para não perder

tempo — para entrar em transe profundo imediatamente. Perguntei se havia encontrado alguma fotografia que achasse desagradável. Ela contou que havia encontrado retratos das mulheres esteatopígicas dos hotentotes, e das mulheres com lábios tipo bico de pato, de escarificação

em algumas tribos africanas, de estranhos rituais de mutilação. Ordenei a ela que se dirigisse para a área mais movimentada da cidade (em estado desperto) e observasse as formas peculiares e as

faces das coisas com quem os homens se casam. Ela deveria fazer isto durante uma semana. Na semana seguinte, deveria olhar formas e faces peculiares das coisas com que as mulheres se casam, e se assombrar com isto. Obedientemente, ela retornou para a entrevista seguinte, entrou

em transe à simples menção do assombro com que observara mulheres quase tão sem graça quanto ela usando alianças. Ela havia visto homens e mulheres que pareciam marido e mulher, ambos horrivelmente gordos e desengonçados. Disse-lhe que estava começando a aprender alguma coisa. Sua tarefa seguinte era ir à biblioteca e ler todos os livros que conseguisse sobre a história da cosmetologia — descobrir o que constitui a beleza desejável aos olhos humanos. Ela fez uma ampla pesquisa e, na semana seguinte, entrou no consultório sem timidez, mas ainda continuava vestida com a roupa de bolinhas. Então disse-lhe que voltasse à biblioteca e se dedicasse aos livros que tratavam de costumes humanos, vestuário e aparência — para descobrir alguma coisa retratada que tivesse, no mínimo, quinhentos anos e ainda fosse bonita. Ann voltou, desenvolveu um transe assim que entrou no consultório, sentou-se e falou longo tempo sobre o que havia visto nos livros. Disse-lhe que sua próxima tarefa seria muito difícil. Durante duas semanas, ela deveria entrar na primeira loja de vestuário feminino que encontrasse, depois noutra, usando seu assustador vestido de bolinhas. Deveria perguntar à vendedora o que deveria usar — perguntar tão séria e honestamente que obteria uma resposta. Depois desta tarefa, ela relatou que várias mulheres mais velhas a haviam chamado de “ queridinha” e lhe explicado por que não deveria usar milhões e milhões de bolinhas. Explicaram-lhe por que não deveria usar vestidos que não lhe caíam bem e acentuavam sua gordura. A próxima tarefa era gastar duas semanas com pensamentos obsessivos: Por que ela, que deveria ter nascido com menos de três quilos, teria adquirido aquela enorme quantidade de gordura? Por que havia se enrolado em gordura? No relato desta tarefa, ela declarou que não conseguira chegar a nenhuma conclusão.

De novo em estado de transe, dei-lhe outra tarefa. Desta vez, descobrir se realmente havia alguma razão para ela pesar o que pesava — querer saber como seria sua aparência se pesasse somente sessenta quilos e se vestisse de modo apropriado. Ela deveria acordar no meio da noite com esta questão em mente, para em seguida tornar a adormecer tranqüilamente. Após alguns outros transes, nos quais reviu todas as suas tarefas, solicitei-lhe que recordasse, uma por uma, cada tarefa, e percebesse se lhe eram dirigidas especialmente. Ann tinha consultas a cada quinze dias. Dentro de seis meses, ela entrou, com grande interesse, para explicar que não conseguira

encontrar nenhuma razão para pesar tanto — ou para se vestir tão mal. Ela havia lido bastante sobre cosmetologia, penteados e maquilagem. Havia lido livros sobre cirurgia plástica, sobre ortodontia. Perguntou, tristemente, se não lhe seria permitido saber o que poderia

fazer a seu respeito. Depois de um ano, estava pesando sessenta e cinco quilos. Seu

gosto para roupas era excelente, e estava num emprego muito melhor. Estava se inscrevendo na universidade e, embora ainda pesasse sessenta e três quilos, estava noiva e ia se casar. Ela extraíra e substituíra dois dentes que haviam crescido fora de alinhamento. Seu sorriso era realmente atraente. Trabalhava como artista de moda para catálogos e jornais. Ann trouxe o noivo para me conhecer. Ela entrou no consultório primeiro e disse: “ Este maldito tolo é tão burro! Ele pensa que sou bonita. E eu nunca vou desiludi-lo. Seus olhos brilham quando olha para mim. Mas tanto você quanto eu sabemos a verdade. Tenho dificuldade em manter o peso — e tenho medo de engordar de novo. Mas realmente sei que ele me ama como sou” . Eles estão casados há quinze anos e têm três belos filhos. Ann fala livremente sobre sua terapia, pois se lembra de tudo que lhe foi dito. Mais de uma vez, afirmou: “Quando você falou aquelas coisas horrorosas a meu respeito, foi tão franco! Sabia que me dizia a verdade. Mas, se não tivesse me colocado em transe, não teria feito nenhuma das coisas que me fez fazer” . Um dos aspectos mais interessantes deste caso é o fato de Erickson ter conseguido que a moça, após seis meses de tratamento, pedisse

para fazer algo para se tornar mais atraente. Ela não estava mais resistindo à mudança, mas plangentemente buscando-a. Naquele momento, tinha o conhecimento necessário e estava suficientemente motivada para tornar a mudança possível. Como faz com freqüência, Erickson utilizou as facilidades da comunidade, como a biblioteca pública. Ao invés de tentar fazê-la entender por que era obesa — a abordagem tradicional —, exigiu que ela passasse duas semanas

pensando obsessivamente sobre as razões de ser obesa. Quando não conseguiu encontrar nenhuma, era razoável permitir que ela perdesse peso. Um exemplo mais extremado da terapia a longo prazo de Erickson foi seu trabalho com um rapaz que era um operário imigrante com inclinações homossexuais. Em poucos anos, ele se graduou na faculdade e passou a preferir as mulheres. Este caso é apresentado em detalhes, porque ilustra muitos aspectos dos procedimentos terapêuticos de Erickson que foram apenas esboçados nos casos anteriores.

Erickson relata: Quando Harold me telefonou, ele, na verdade, não solicitou uma consulta, mas, numa voz fraca e hesitante, conseguiu expressar a questão de se alguns minutos de meu valioso tempo poderiam ser desperdiçados com ele. Quando chegou ao consultório, sua aparência era

inacreditável. Não havia feito a barba nem tomara banho. Seu cabelo, que ele mesmo cortava, estava muito comprido, picado e cheio de pontas. Suas roupas estavam imundas e seus sapatos de trabalhador danificados e furados na parte de cima, e ele os amarrava com barbante. Ficou parado ali como um otário, retorcendo as mãos enquanto seus músculos faciais se contorciam. De repente, enfiou a mão no bolso e tirou um punhado de notas amassadas. Colocou-as em minha mesa, dizendo: “ Senhor, isto é tudo o que tenho. Não dei à minha irmã tudo que pediu ontem à noite. Eu lhe pagarei mais assim que ganhe mais dinheiro” .

Encarei-o em silêncio, e ele disse: “ Senhor, não sou muito esperto ou muito bom. Nunca esperei ser muito bom, mas não sou mau. Não sou nada além de um maldito débil mental imbecil, mas nunca fiz nada errado. Trabalho duro — veja —, minhas mãos provam isto. Tenho que trabalhar pesado, porque, se parar, vou me sentar, chorar, me sentir muito infeliz, vou querer me matar, e isto não é certo. Por isso trabalho rápido e não penso em nada, não consigo dormir, e não quero comer, e me machuco todo e, senhor, não agüento mais tudo isto” . Então, começou a chorar.

Quando parou para respirar, perguntei-lhe: “E o que deseja de mim?” . Entre soluços, ele respondeu: “ Senhor, sou só um débil mental, um débil mental imbecil. Posso trabalhar. A única coisa que quero é ser feliz, ao invés de ficar morrendo de medo, chorando e querendo me matar. O senhor é o tipo de médico que eles têm no exército, para pôr na linha rapazes que ficam meio malucos, e quero que me endireite. Senhor, por favor, me ajude. Trabalharei muito para pagá-lo, senhor, tem que me ajudar” . Ele se voltou e caminhou em direção à porta do consultório,

com os ombros curvados e arrastando os pés. Esperei até que segurasse a maçaneta da porta e disse: “Ei, você, escute-me. Você não passa de um miserável débil mental. Você sabe trabalhar e quer ajuda. Não sabe nada sobre como se clinica. Eu sei. Sente-se naquela cadeira e deixe-me começar a trabalhar” . Pontuei deliberadamente a frase, de acordo com o estado de espírito dele e, de maneira calculada, para chamar e fixar sua atenção. Quando ele se sentou, confuso, encontrava-se virtualmente num transe leve. Continuei: “Enquanto está sentado nessa cadeira, quero que escute. Farei perguntas. Você as responderá e não dirá nem um pouquinho a mais nem a menos do que devo saber. Isto é tudo o que você vai fazer — nada mais” . Em resposta às perguntas, Harold conseguiu contar uma história de si mesmo. Resumindo, ele tinha vinte e três anos, era o oitavo filho de uma família de sete irmãs e cinco irmãos. Seus pais eram imigrantes

analfabetos e toda a família crescera na pobreza. Como não tinha roupas, Harold perdeu boa parte da escolarização. Deixou a escola para ajudar a manter seus irmãos menores depois de completar dois anos com algumas reprovações. Aos dezessete anos, entrou para o exército, onde, depois do treinamento básico, passou os dois anos de serviço como a “ pessoa esquisita do pátio de manobras” . Quando deu baixa, juntou-se à sua irmã de vinte anos e ao seu marido no Arizona e descobriu que ambos haviam se tornado seriamente alcoólatras. Repartia seus ganhos como trabalhador braçal com eles e não mantinha nenhum outro contato familiar. Tentou a escola noturna, mas fracassou. Vivia num nível mínimo de subsistência, alugava um barracão deprimente de um quarto e sua dieta alimentar consistia nos vegetais jogados fora pelo mercado de produtos agrícolas e carne barata, cozidos sobre um prato quente secretamente ligado a uma tomada externa de um barracão vizinho. Tomava banho, com pouca freqüência, nos canais de irrigação, e quando fazia frio dormia vestido, porque não possuía cobertores suficientes. Com algum encorajamento, conseguiu dizer que abominava as mulheres e que nenhuma mulher em sã consciência quereria um homem débil como ele. Ele era homossexual e não se deveria fazer nada para alterar isto. Seus esporádicos envolvimentos sexuais eram com jovens punks. O modo como Erickson abordou este caso é típico de seus métodos, e vários aspectos da terapia serão resumidos. No entanto, deve-se ter em mente que este é um breve esboço de um método de tratamento extraordinariamente complexo, em que cada manobra terapêutica está inextrincavelmente ligada a todas as outras, de modo que uma seleção de tópicos simplifica em extremo o caso. Quando Harold entrou no consultório, Erickson decidiu aceitá-lo como paciente quase de imediato. Sentiu que “ havia uma riqueza de traços fortes de personalidade que justificariam a terapia. Sua aparência descuidada, seu desespero, a inconsistência de sua linguagem e de suas idéias, suas mãos muito calejadas pelo trabalho manual, davam a impressão de potencial terapêutico” . No entanto, quando o homem fez sua súplica desesperada, Erickson

não respondeu de pronto com ajuda. Ele o deixou chegar ao fim de sua corda, permitindo-lhe que se voltasse para deixar o consultório, sentindo-se rejeitado. Só quando estendeu a mão para girar o trinco da porta e ir embora Erickson respondeu. Como ele mesmo coloca: “Quando o paciente virou as costas para deixar o consultório, ele estava emocionalmente na maré mais baixa possível. Viera pedir ajuda e estava indo embora sem ela. Psicologicamente, estava vazio. Neste momento, atirei-lhe uma série de sugestões que, por sua natureza, exigiam que ele respondesse positivamente. Ele foi subitamente atirado de um profundo desespero para uma posição realmente promissora, o que era um contraste incrível” . Harold se define como um débil mental, um débil mental imbecil, e Erickson aceita seu ponto de vista como, tipicamente, aceita o de outros pacientes. Como ele mesmo coloca: “O fato de desde o início termos uma opinião diferente sobre ele ser um débil era irrelevante, e não era apropriado à situação. Naquela situação, para sua capacidade de compreensão muito limitada, ele era um estúpido débil mental totalmente desinteressante e, na verdade, intolerante em relação a uma opinião contrária” . A extraordinária habilidade de Erickson em “ aceitar” é demonstrada pelo fato de ele só ter deixado de lado essa concordância a respeito de sua debilidade mental quando Harold foi para a faculdade. A declaração inicial de Erickson confirmou que a linguagem do homem era apropriada, identificou os dois participantes e definiu suas tarefas — ele clinicaria e o paciente seguiria as instruções

— e forneceu ao paciente um quadro de referência seguro. Harold não deveria lhe contar “ um nada a mais ou a menos” daquilo que precisava saber. Além disso, sua frase “ Isto é tudo que deve fazer — nada mais” permitiu que Harold se sentisse certo e seguro. Como Erickson comenta: “ Por mais ilusória que fosse esta segurança, ela era válida para ele” . E acrescenta: “Ao responder a perguntas nessas condições, ele foi absolvido da necessidade de fazer qualquer julgamento

sobre suas respostas. Só eu poderia fazê-los, e mesmo então pareceria ser somente um julgamento da quantidade de informação, não da qualidade emocional ou do valor” . Mais tarde, na entrevista que continuou por uma segunda hora, Erickson convenceu-o de que havia ainda uma ou outra questão concernente à terapia que ainda não mencionara. Como a terapia era uma partilha de responsabilidades,Harold teria que acrescentar outros itens que não considerava importantes ou significativos: “ Coisas especiais que ainda não foram ditas, tudo tem que ser dito de um jeito ou outro. Mas essas vão ser só as especiais” . Em resposta, Harold declarou que, já que estavam partilhando a responsabilidade, teria que informar Erickson de que era “ bicha” . Não tolerava as mulheres e preferia uma felação com homens. Não queria que nenhum esforço fosse feito para conduzi-lo à heterossexualidade e solicitou uma promessa de que isto não seria feito. Erickson respondeu de uma maneira típica: comprometeu-se a deixá-lo livre para atingir seus próprios fins, prometendo que todos os esforços seriam feitos de acordo com as necessidades de Harold, “ conforme ele progressivamente as fosse compreendendo” . Nem ele nem o paciente deveriam definir prematuramente um objetivo que ainda não fora determinado, e nenhum dos dois poderia dar ordens ao outro. Cada um tinha que desempenhar sua tarefa com absoluto respeito pelos esforços honestos do outro. Mais do que muitos terapeutas, Erickson busca no paciente objetivos tão específicos quanto possível nas sessões iniciais. Ele fará

perguntas e indagará de novo, como fez no final da sessão descrita acima. No segundo questionamento a respeito do que desejava, Harold explicou que era burro, um débil mental, que “ não tinha cérebro ou educação” , e que só era qualificado para o trabalho braçal. Ele tinha a mente “ toda enrolada e confusa” e queria ser “ endireitado” para “poder viver feliz como outros débeis mentais estúpidos” . Quando perguntou se estava esperando muito, Erickson lhe assegurou, enfaticamente, que “ de maneira alguma lhe seria dado mais do que seu quinhão correto de felicidade” , e também que ele teria de aceitar “ toda a felicidade que de direito lhe pertencesse, não importa quão pequena ou grande fosse a sua porção” . Aproximando-se dele desta maneira, Erickson o fez comprometer-se a aceitar todos os benefícios terapêuticos a que estava autorizado, enquanto também definia uma situação em que ele podia aceitar ou rejeitar de acordo com suas necessidades. Como o próprio Erickson diz, dessa maneira “ não resulta nada alheio à personalidade, a pessoa fica preparada para reações positivas e negativas e tem um senso interior de obrigação de enorme força motivacional” . Posteriormente, quando Erickson definiu a tarefa da terapia como “ contar idéias e endireitá-las, não importa o que fossem, de modo que ninguém nunca ficasse com a mente enrolada, nem que fosse para agradar alguém” , Harold respondeu que não se devia esperar muito dele. Foi-lhe assegurado que deveria fazer somente o que pudesse — de fato, “ era melhor mesmo que não fizesse mais do que podia, porque seria perda de tempo” . Ao final da entrevista, o relacionamento foi definido por Erickson:

“ Deixe eu ficar com a terapia — isto é da minha conta, e você fique com não melhorar mais do que pode — isto é da sua conta” . Como Erickson conta: “Esta formulação negativa implicava, da maneira mais efetiva e aceitável, o objetivo possível de realmente ficar bem. Assim, tanto os desejos positivos quanto os negativos se unem para realizar o objetivo comum, ficar bem — um objetivo que ele provavelmente achava limitado, mas que não era” . Para resumir o encontro inicial de Erickson com este paciente, a postura terapêutica escolhida presume que o paciente se dirige a duas direções contraditórias ao mesmo tempo. O paciente declara que é uma pessoa que busca desesperadamente assistência e, ao mesmo tempo, que resistirá a toda mudança. Erickson responde em dois níveis, que satisfazem às duas definições do paciente. Ele aceita a solicitação de ajuda, definindo-se como a pessoa encarregada da terapia, e diz que o paciente deve seguir instruções. Dentro desse quadro de referência, ele simultaneamente define um relacionamento

apropriado para alguém que resiste à mudança e reluta em seguir instruções, o que faz de várias maneiras: (a) motivando o paciente para a mudança quando aumenta seu desespero com a demora da resposta; (b) comunicando-se na linguagem do paciente e concordando com sua autodefinição de débil mental; (c) definindo os limites toleráveis do que o homem deve fazer ou não fazer; (d) tornando mais fácil outras auto-revelações; (e) limitando o que se espera dele em termos de objetivos de forma ambígua e reafirmado ao paciente que não deve fazer ou conseguir mais do que pode; e (f) definindo uma situação na qual “ nenhum dos dois pode dar ordens ao outro” . O que parece complexo e contraditório nessas manobras terapêuticas é a maneira contraditória e ambígua como os relacionamentos são definidos, como ocorre em qualquer terapia. Por definição, os pacientes psiquiátricos são suplicantes em busca de ajuda, mas, também

por definição, não há nada errado com eles em sentido comum — seus problemas resultam da maneira infeliz com que lidam com outras pessoas, particularmente com pessoas que lhes oferecem assistência. Por conseguinte, é preciso que haja um quadro de referência útil de assistência, mas, dentro desse quadro de referência, é preciso evitar exigências diretas de mais comportamento “ normal” , isto é, comportamento apropriado a um relacionamento de ajuda. Em outras palavras, é preciso que haja um quadro de referência que defina um relacionamento capaz de induzir mudança e, dentro deste quadro, não haja nenhuma solicitação direta de mudança, mas sim uma aceitação da pessoa como ela é. Durante todo o caso, quando Erickson solicita uma mudança, ela é definida para o paciente como uma extensão, na verdade uma extensão menor, do seu modo de ser. É por essa razão que Erickson define a terapia, em acordo com o paciente, como algo onde não haverá tentativas de uma mudança real, o que ocorre é somente que um débil mental estúpido está sendo ajudado a continuar como é, mas ser mais feliz e um melhor trabalhador.

O TRABALHO E A REALIZAÇÃO DA CONDIÇÃO APROPRIADA

No tratamento de Harold houve dois temas principais: uma melhoria na posição de sua carreira na sociedade e uma melhoria de sua habilidade como ser social, especialmente no comportamento apropriado com as mulheres. Os dois objetivos são, sob muitos aspectos, inseparáveis, pois uma certa competência na socialização é essencial para a carreira, mas aqui os dois serão apresentados separadamente. Harold tinha, em geral, sessões de uma hora, ocasionalmente de duas horas de duração. “No início, quase sempre era empregado um transe leve, mas na medida em que a terapia progrediu, utilizei um transe médio e, de tempos em tempos, um estado de transe profundo.” A hipnose foi empregada para garantir que as instruções

seriam seguidas, para prover, em certos momentos, uma amnésia e, então, ultrapassar alguma resistência; e, nos estágios posteriores, para fornecer experiência para o sentido subjetivo de tempo distorcido, de modo que mais coisas pudessem ser realizadas em períodos de tempo mais curtos. Harold foi especialmente treinado, tanto no estado de transe quanto desperto, para falar livremente e para discutir suas idéias com facilidade. Erickson conseguiu isso fazendo com que fornecesse, em ritmo tedioso, um relato completo de seu dia de trabalho e outras atividades. Erickson aparteava esse tipo de relato com perguntas e sugestões, de modo que Harold estava sendo treinado tanto para ser comunicativo quanto para ser receptivo a idéias. Na primeira sessão terapêutica, Erickson disse a Harold autoritariamente:  “Não quero argumentar com você. Vou lhe mostrar algumas idéias e explicá-las. Quero que escute, compreenda e descubra se elas lhe dizem respeito e como pode usá-las, a seu próprio modo, não ao meu, não ao modo de qualquer outra pessoa, simplesmente do seu modo. Coloque tudo o que você sabe em questão, mas nada além disso. Você tem que ser você, como realmente é” . Harold havia dito que suas irmãs e sua mãe eram excessivamente religiosas, mas que ele não era. No entanto, a Bíblia era “ a coisa mais importante do mundo” , embora ele “ não tivesse por ela o mínimo interesse” . Com isto como pano-de-fundo, Erickson começou a confirmar os sentimentos de Harold sobre a importância

do trabalho, assim como sobre sua estupidez. Disse: “ Você acredita na Bíblia, é a coisa mais importante do mundo. Isto está certo e é correto. Bem, agora quero que você saiba de uma coisa e a compreenda. Em algum lugar da Bíblia é dito que sempre se tem os pobres consigo. E que os pobres são os abatedores de árvores e os carregadores de água. Isto significa o trabalho cotidiano, e o mundo não anda sem ele. É tremendamente importante. Quero apenas que compreenda isso”.

A questão conduziu a uma discussão, que ocupou várias sessões, sobre a importância, para todas as sociedades, do trabalho desempenhado pelos “ estúpidos” . Entrelaçada a este relato estava a

história do trabalho de Harold e sua significação para ele como produtor e membro legítimo de uma sociedade. Com essas idéias, houve uma acentuação sistemática, mas deliberadamente esparsa, do valor e da importância dos atributos físicos. Tamanho dos músculos, força, coordenação e habilidade, assim como a importância dos sentidos físicos, foram discutidos.

Por exemplo, para trabalhar em valas de irrigação “ a gente não precisa só de poder muscular. Temos que ter isto, mas temos que ter uma pá do tamanho certo cheia de lodo, ou ficamos cansados antes que o trabalho do dia esteja completo. Mesma coisa é trabalhar com algodão. Não se pode cortá-lo ou colhê-lo, mesmo tendo músculos, se não se sabe ver e sentir o trabalho correto” . Com esse tipo de discussão, Harold foi levado, sem perceber, a entender a importância

da coordenação entre os músculos e os sentidos, e a adquirir um respeito e uma admiração pela realidade ao seu redor, assim como por seu papel naquela realidade. Como ele se desmerecia, houve uma discussão sobre homens de linha de montagem e atletas, que são considerados meramente homens musculosos, sem inteligência. De modo semelhante, salientei que hav;a cozinheiros que só possuíam um sentido apurado de paladar, mas não tinham muita inteligência. Isto foifeito para estabelecer uma ampla base para a idéia de que até mesmo a pessoa mais estúpida pode aprender uma grande variedade de coisas. Quando ele pareceu apreender isto, ofereci-lhe uma longa e interessante dissertação sobre o sábio-idiota, com histórias de casos e cuidadosa ênfase sobre suas capacidades e deficiências. Em particular, Railroad Jack excitava intenso interesse e admiração por parte de Harold. Encerrei a discussão, com Harold profundamente hipnotizado, com a afirmação de que ele não era nem um idiota nem um sábio,  simplesmente alguém entre os dois. Antes que pudesse perceber o significado da observação, despertei-o com amnésia e mandei-o embora. Parte do valor da hipnose é o uso da amnésia sempre que é oferecida uma sugestão crucial ou altamente significativa, que poderia ser discutida ou questionada. Evita-se a rejeição de uma idéia valiosa, e o paciente pode desenvolvê-la mais tarde. Muitas vezes as sugestões terapêuticas podem ter caráter banal; como tais, são generalizações cujas aplicações pessoais não são percebidas imediatamente e mais tarde se tornam indiscutíveis. Alguns exemplos: “Não é só o que você diz ou como diz; é o que significa para você que conta” ; ou: “Não há ninguém que não possa aprender alguma coisa boa, interessante, algo incrivelmente agradável e bom para todo bebê, toda criança, todo homem, toda mulher” ; ou: “Ninguém sabe o que a criança será quando crescer, e ninguém sabe como ela será daqui a cinco anos, ou mesmo daqui a um ano” . Ao enfatizar a gama de possibilidade dos estúpidos, e questionar a aptidão potencial de todos, Erickson introduz a incerteza sobre a questão das potencialidades de Harold. Contudo, isto foi feito de tal modo que a incerteza não podia ser facilmente discutida ou rejeitada. Paralelamente à ênfase na utilidade do estúpido, Erickson começou a focalizar a questão dos requisitos de um bom trabalhador. Em geral, ele encontra algum aspecto positivo na vida do paciente e o utiliza como uma alavanca para modificar seu comportamento. Nesse caso, Harold se orgulhava de ser um bom trabalhador, e então Erickson organizou suas sugestões ao redor disto. Primeiro, falou da necessidade de um trabalhador ter boas condições físicas e, mais tarde, enfatizou a importância de uma dieta adequada, fazendo com que Harold aprendesse o que é boa cozinha. Para aprender a cozinhar bem, Harold teve que conseguir livros de culinária na biblioteca. Erickson também o persuadiu a fornecer boas refeições, ao invés de dinheiro, à irmã e ao cunhado alcoólatras, e neste processo Harold aprendeu a considerar o casal como exemplo de autonegligência e autodestruição. A motivação para todas essas atividades foi definida em termos do desejo expresso de Harold de ser um bom trabalhador. Neste estágio inicial, Harold aceitou a idéia de que um bom trabalhador geralmente deveria cuidar de seu eu físico, inclusive ter sapatos adequados para dar-lhe a oportunidade de trabalhar melhor. Entretanto, começou a demonstrar resistência quando a idéia foi aplicada a si mesmo. Por isso, Erickson passou a discorrer sobre o trabalho nos campos de algodão. A partir disso, surgiu uma discussão sobre o trator, como uma peça da maquinaria da fazenda que não se adequava a nada, exceto ao trabalho manual. Então chamei sua atenção para o fato de o trator exigir o tipo certo de cuidados. Precisava ser mantido engraxado, limpo, com óleo, e ficar protegido dos elementos. Deveria ser adequadamente abastecido com o tipo certo de óleo e combustível, certamente não com a gasolina para aviões, e as válvulas deveriam ser postas no chão, as velas de ignição limpas, o radiador esvaziado, tudo isto para que o trator pudesse ser um trabalhador braçal útil. Esbocei outras analogias parecidas e disse: “Você sabe que tem que fazer algumas coisas certas, mesmo que não queira” . Mas tive o cuidado de não definir o que seriam essas “ coisas” . Ele respondeu aparecendo para a entrevista seguinte com roupas limpas. Parecia hostil e beligerante enquanto esperava meus comentários sobre sua aparência. Eu disse: “ Bem, já era tempo de você cuidar de suas roupas ao invés de gastar dinheiro com sua carcaça comprando roupas novas porque elas se gastam muito rápido” . Com este fraseado, a insistência de Harold sobre sua inferioridade e sua aceitação da idéia de se cuidar foram confirmadas, comprometendo-o a continuar a tomar conta de si mesmo. Ele suspirou aliviado e, espontaneamente, desenvolveu um estado de transe para evitar qualquer outra discussão sobre suas roupas. Imediatamente lhe contei, com um elaborado mas malogrado esforço de ser engraçado, a história do fazendeiro parcimonioso que sabia que uma mula é exatamente um “ cavalo de trabalho” , mas ao invés de alimentá-la com capim, colocava nela óculos de lente verde e a alimentava de maravalhas. Depois se queixava que, após ter treinado a mula para viver de maravalhas, ela morreu antes que ele pudesse fazê-la trabalhar. Antes que

Harold pudesse reagir, li e discuti “A obra-prima do diácono, ou A maravilhosa sege de uma roda” . Então mandei-o embora com uma disposição um tanto incerta e confusa. Na sessão seguinte, ele apareceu, pela primeira vez, com um corte de cabelo bem-feito, com roupas novas, e visivelmente saído do banho. Embaraçado, explicou que a irmã e o cunhado haviam ficado sóbrios para celebrar o aniversário de casamento e ele se sentira obrigado a comparecer. Repliquei que algumas coisas devem ser feitas, e, quando o hábito se forma, não é tão difícil continuar. Harold

acrescentou que, como presente para a irmã, a levara a seu dentista e seu médico para um exame. Exceto por uma menção subsequente à mudança de endereço “ há algum tempo” , nada mais foi dito sobre seu melhor cuidado físico ou a melhoria de seu padrão de vida. Agora que Harold se vestia melhor e morava mais confortavelmente, Erickson começou a encorajá-lo a investigar suas potencialidades arranjando-lhe um fracasso. Encorajei-o a se inscrever numa aula noturna de álgebra. Nós dois sabíamos que ele não conseguiria dar conta da tarefa, mas senti que seria conveniente enfatizar isso, e assim resolver as considerações negativas antes de tentar as positivas. O paciente tem uma necessidade contínua de sentir que está certo, mesmo quando está errado, e o terapeuta precisa ser solidário com ele. Então, quando chega o momento de o paciente corrigir seu erro, ele e o terapeuta podem fazer isto juntos, e assim a terapia torna-se um empreendimento mais cooperativo. Harold logo anunciou com prazer que era incapaz de dominar

a álgebra, e, com um prazer similar, anunciei minha satisfação com seu fracasso. Provei que estivera errado ao se inscrever no curso com a idéia de descobrir se conseguiria segui-lo, ao invés de se inscrever com a idéia de descobrir que não poderia. Esta afirmação confundiu Harold, mas a razão desse comentário era preparar terreno para posteriores tentativas na escola. Com o fracasso protegidamente executado, Harold tornou-se receptivo a outras instruções. Neste ponto, Erickson começou a ensinar-lhe a ser mais sociável, o que será descrito a seguir, mas uma visita social foi importante para a sua crescente habilidade no trabalho. Atribuí a Harold a tarefa de travar uma nova amizade. Dei a ele um endereço e lhe disse que fosse lá e aprendesse muito, e bem, e meticulosamente; não deixasse que nada lhe escapasse e fizesse visitas freqüentes.

Durante as semanas seguintes, enquanto ele executava sua tarefa, eu o proibi de discuti-la comigo, para que tudo que fizesse fosse de sua inteira iniciativa e responsabilidade. Uma tal instrução também o forçou a se empenhar mais devido à eventual discussão do que houvesse feito. A pessoa para quem o encaminhei era um homem chamado Joe, de trinta e oito anos, com quem ele desenvolveu quase de imediato uma calorosa amizade. Joe sofria de asma e artrite. Confinado a uma cadeira de rodas, cuidava de suas próprias necessidades e se sustentava. Prevendo que logo não conseguiria mais andar, havia construído em sua cabana um monte de engenhos mecânicos que iam ao encontro de suas necessidades. Ganhava a vida consertando rádios e aparelhos elétricos na vizinhança e aceitando serviços extras de cerzimentos, mas, principalmente, como baby sitter profissional. Seu conhecimento de histórias, canções e versos e seus poderes de imitação cativavam tanto as crianças quanto os adultos. Joe também preparava

seus alimentos, trocava receitas com os outros e dava conselhos culinários às esposas da vizinhança. Joe não havia completado a sexta série, e seu coeficiente de inteligência era 90 ou menos, mas tinha uma boa memória, ouvia bem e possuía um notável arsenal de fatos e idéias filosóficas. Gostava das pessoas, e era animado e influente, a despeito de sua deficiência física. Desta amizade, que continuou durante dois anos, até a morte súbita de Joe por ataque cardíaco, Harold tirou benefícios imensuráveis. Contou-me muito pouco a respeito de Joe, e a amizade permaneceu sua, não partilhada, e portanto sua própria realização. Harold também recebeu instruções para visitar a biblioteca local e se familiarizar profundamente com livros infantis, o que

ele fez, em parte devido à influência de Joe. Espontaneamente, começou a explorar o resto da biblioteca e a compartilhar com Erickson os livros e as idéias, algumas contribuições de Joe e outras de suas leituras. Duas áreas que causavam sofrimento emocional a Harold eram a arte de cozinhar e a arte de escrever. Erickson passou a discutir a culinária. Considerava-a uma arte que exigia a mais alta perícia e, ao mesmo tempo, a depreciava como algo que até um débil mental conseguia executar, até mesmo uma mulher. O ato de escrever foi discutido como uma grande realização, mas depreciado como algo que até as criancinhas conseguiam aprender, assim como os estúpidos e até mesmo as mulheres. A importância da escrita foi ainda mais reduzida, e equiparada às marcas retorcidas e às linhas que as mulheres faziam na taquigrafia. Como Harold havia procurado a terapia para conseguir uma quantidade módica de prazer na vida, Erickson reviu com ele possíveis fontes de lazer. Harold apreciava a música e possuía um rádio, embora se sentisse culpado por isto, uma vez que achava que não merecia possuí-lo. Incuti nele a idéia de que, somente por enquanto, ele precisava do rádio e tinha que usá-lo por prescrição médica. Disse “ somente por enquanto” para capacitá-lo a aceitar que o comando tinha caráter limitado e restrito. Qualquer rejeição futura de um comando poderia então ser vista como cooperação, porque ele seria por prazo curto. Ofereci-lhe, além disso, outro raciocínio: assim como um bom

trabalhador deve exercitar seu corpo, deve também exercitar seus olhos, ouvidos, e todo o ser físico. Tendo estabelecido que o rádio era parte legítima de sua vida, e graças a seu interesse genuíno pela música, tornou-se relativamente fácil desenvolver interesses recreacionais porque outras sugestões terapêuticas podiam se encaixar em seu interesse pela música. Por exemplo, disse-lhe, como uma sugestão pós-hipnótica, que uma melodia agradável apareceria em sua mente. Ele iria querer entoá-la bem, mas ela seria lembrada melhor quando ele estivesse comendo um hambúrguer. Deste modo, consegui efetivar uma alteração em sua dieta sem qualquer oposição. A cada sessão Harold era encorajado a fazer um relato das músicas e canções que apreciara ultimamente, e eu me esforçava por encaixar os títulos, ou trechos delas, nas sugestões terapêuticas. Por exemplo, esbocei sugestões a partir de “Fazendo o que surge naturalmente” , “Acentuar o positivo; eliminar o negativo” e “Ossos ressequidos” (“O osso do dedão se liga ao osso do pé” etc.). No entanto, todas as músicas de cantoras, ou as que louvavam as mulheres, tendiam a ser rejeitadas por ele até muito mais tarde na terapia. Eu o encorajava a marcar o compasso da música de vários modos e a cantarolar um acompanhamento. Então, vencendo alguma resistência, eu o persuadi a acompanhar vocalmente o cantor. Finalmente, eu o induzi a investir num gravador para que pudesse gravar a música e seu próprio canto, sozinho ou em conjunto com o cantor do rádio. Harold teve tanto prazer nessas atividades que foi possível

confrontá-lo com uma constelação de idéias mais ameaçadoras. Sugeri que aprendesse a tocar um instrumento, de preferência banjo ou guitarra, para se acompanhar. Contudo, logo rejeitei a idéia, já que  Harold só estava qualificado para o trabalho braçal que exigisse músculos  fortes, não para habilidades musculares delicadas. Debati os prós e os contras da questão, com repetidas expressões de pesar que eram na realidade sugestões hipnóticas indiretas. Finalmente, encontramos uma solução. Harold poderia adquirir rapidamente toda a habilidade muscular refinada e a coordenação que nunca tivera a oportunidade de desenvolver se aprendesse taquigrafia e datilografia. Qualquer débil mental estúpido ou qualquer mulher burra cacarejante poderia aprender essas habilidades, porque a taquigrafia era simplesmente caprichosos sinais curvos feitos com um lápis, e bater à máquina era simplesmente socar teclas, como se faz no piano; mas na datilografia pode-se ver imediatamente os erros e corrigi-los. Talvez para um paciente no seu estado normal, desperto, este argumento parecesse ridículo e fútil, mas no estado de transe o paciente fica atento e responde a idéias e orientações que possam ajudá-lo ao invés de se preocupar com relações lógicas e coerências. Harold ficou angustiado, mas determinado. Seguiu as sugestões e se sentiu enormemente motivado para aprender taquigrafia e datilografia, treinando conscienciosa e intensamente. Aprendeu rápido, encorajado pela admiração que sentia pela destreza manual e perícia em movimentos precisos de seu amigo Joe. O próximo passo foi instigá-lo a tomar aulas semanais de piano, “ para apressar o aprendizado da datilografia e o toque da guitarra”. Foi encaminhado a uma professora de piano, uma senhora cujo marido estava enfermo, e conseguiu ter as aulas em troca de cuidar do quintal. Harold aceitou o arranjo e não percebeu que fora posto em contato especial com uma mulher, um contato que o colocava na posição de aluno em relação a uma mulher e também numa posição

em que poderia desempenhar o papel de homem competente. (Esta circunstância ocorreu sem planejamento prévio, mas foi aproveitada para atingir esses objetivos.) Com o aumento de despesas devido ao gravador, à guitarra, à máquina de escrever, e com a melhoria de suas condições de vida, Harold começou a procurar um emprego melhor. Um amigo trabalhador ensinou-o a dirigir carros, o que o levou a conseguir emprego como carregador numa transportadora, e depois um emprego bemremunerado como motorista de caminhão. Dediquei uma sessão ao resumo de sua história de trabalho passada, sua melhoria de vida e suas progressivas realizações, mas diminuí a importância de tudo isto como sendo um processo de “viver dia após dia no mesmo emprego antigo, sem que nada novo acontecesse” . Finalmente, encorajei-o a começar a explorar a sessão de empregos dos jornais. Por acaso, apareceu um anúncio pedindo um copista, alguém que não tivesse vínculos e pudesse trabalhar a qualquer

hora do dia ou da noite e viver numa cabana isolada na montanha. Ele deveria saber datilografia e taquigrafia. Harold solicitou uma entrevista e foi empregado com o salário de 410 dólares por mês. Seu empregador era um velho recluso, muito rico e um tanto excêntrico, cujo hobby era mandar fazer cópias de antigos manuscritos e livros, que depois anotava e discutia. Harold desempenhou os deveres de secretário, e, quando o cozinheiro estava de folga durante um ou dois dias, também cozinhava. Estava bem qualificado para fazê-lo, pois sua terapia incluíra o estudo de livros de culinária e cozinhar as refeições na casa da irmã. O desempenho de Harold agradou seu empregador, e, além do salário e da manutenção, ele recebeu um guarda-roupa completo para suas visitas à cidade para comprar mantimentos. Um terno de trabalho foi providenciado para suas freqüentes visitas à biblioteca em busca de livros de referência. “Harold trabalhou neste emprego durante dezoito meses, durante os quais vinha me ver de tempos em tempos para sessões de duas horas. Ele amadureceu muito, e seu pensamento, sua orientação acadêmica, ampliaram-se tremendamente, e a gama de interesses e percepções cresceu como resultado de longas discussões com o empregador erudito. Finalmente, o empregador fechou sua casa no Arizona, dando a Harold três meses de salário como pagamento final. Em poucos dias Harold conseguiu outro emprego bem-pago, uma combinação de secretário e superintendente de escritório. Hesitou um pouco em aceitá-lo devido a suas limitações mentais, mas finalmente

aceitou-o, esperando ser logo despedido por incompetência. Explicou que havia se candidatado à posição porque “ não sabia fazer outra coisa” . Neste ponto, Harold foi hipnotizado e levado a  rever toda a sua experiência de trabalho. Particularmente, ele deveria comparar “impiedosamente” o primeiro período de sua vida com o período de dezoito meses em que trabalhara como secretário. Ele fez esta revisão com aparente sofrimento emocional. Mandei-o embora com a sugestão pós-hipnótica de voltar com uma questão bem mais importante, uma idéia tentadora. Na sessão seguinte, Harold disse: “ Tenho me sentido uma grande porcaria, dilacerado por dentro, como se tivesse que fazer alguma coisa, mas não sei o quê. Talvez tenha resolvido parte da questão. É tolo dizer isto, mas sinto que devo ir para a faculdade, mesmo sabendo que vou levar pau” . Disse que havia uma porção de coisas que queria conhecer, como uma vida de aventuras, apreciar um pôr-dosol, e acrescentou: “Ah, há um mundo de coisas e, homem, estou indo” . Informei-o, de modo autoritário: “Está bem, você irá para a faculdade. Mas desta vez não cometa o erro que cometeu quando foi para o curso de álgebra — para verificar se podia passar ao invés de descobrir que não podia. Em setembro próximo, você se inscreverá

num curso completo na faculdade, e, por volta do meio do semestre, terá descoberto que não irá conseguir fazer parte dele” . Acrescentei que até aquela data ele deveria explorar as pequenas, boas e simples coisas que formam grande parte da vida. Durante os três meses seguintes Harold teve sessões semanais, e o caráter das entrevistas foi marcadamente alterado. Em geral ele

passava o tempo todo fazendo perguntas sobre minhas próprias opiniões a respeito de vários assuntos. Comportava-se como um homem curioso que procura saber como outro homem, a quem ele respeita, encara e faz as coisas, procura divertir-se, sente e pensa sobre uma

infinita variedade de tópicos. Em setembro, Harold se inscreveu num curso regular de dezesseis

horas. Não me pediu opinião ou conselho sobre os cursos ou os procedimentos de inscrição para quem não possuía diploma de segundo grau, e eu não dei nenhum palpite. A certeza de ser estúpido ainda não se dissipara, de modo que voltei a lhe assegurar que ele teria que esperar até meados do semestre para saber no que estava fracassando. Como ele tinha certeza do fracasso, pôde se inscrever com uma grande sensação de segurança. Não se esperava nada além de suas capacidades, e nem mesmo que sobrecarregasse essas capacidades. No entanto, para chegar àquele fracasso, ele teve que ter sucesso em se matricular. À medida que as semanas passavam, Harold não tentava discutir seus estudos. Depois dos exames do meio do semestre, ele relatou

com espanto que havia tirado boas notas em tudo. Repliquei que em meio semestre provavelmente os professores ainda não fossem capazes de julgar adequadamente os novos estudantes. Ele teria que esperar até o final do semestre para uma determinação correta de suas

habilidades. Deste modo, a não descoberta de suas falhas foi definida como culpa de seus instrutores. Todavia, Harold estava sendo obrigado a aceitar suas notas no semestre seguinte como “uma avaliação correta de suas habilidades” . Pode ser difícil acreditar que um paciente que se submete à terapia possa ser tão afavelmente desatento em relação a seu bom desempenho a faculdade. No entanto, deve-se lembrar que a hipnose foi empregada, que a amnésia foi utilizada, e que distrações constantes de atenção indubitavelmente ajudaram sua habilidade para esconder

de si mesmo o que estava acontecendo. No final do semestre, Harold recebeu somente notas A, e, sem marcar hora, surgiu no consultório. Estava aborrecido, e sentia que havia feito algo errado. Assegurei-lhe que nada fizera de errado, apenas estava enganado em relação a muitas coisas. Ele desenvolveu um transe profundo e eu lhe dei a seguinte sugestão pós-hipnótica: “Quando despertar, você saberá as notas que recebeu. Você saberá que este tópico é uma questão já estabelecida. Pode discutir o que quiser, quando for conveniente, pois não é mais uma questão discutível, mas um fato estabelecido” . Harold continuou a faculdade com sucesso, enquanto encarava um novo problema: lidar com mulheres em relacionamentos íntimos. Mas, antes de entrar neste tópico, devemos notar ainda outros pontos da abordagem terapêutica. Em primeiro lugar, deve ser enfatizado que, num período de dois ou três anos, um trabalhador braçal que se considerava um estúpido débil mental, e cuja história confirmava esta idéia, foi transformado num homem capaz de ganhar a vida com empenho de classe média, e de obter sucesso como estudante de faculdade. Ele deixou de ser um marginal e adquiriu um status razoavelmente alto. Este objetivo foi atingido sem que houvesse qualquer exploração do que pudesse estar “ por trás” de seu problema no sentido psiquiátrico comum; ele mudou sem discernir seu passado, e sem nenhuma descoberta da relação entre seu passado e seu presente através de qualquer interpretação de transferência. Nenhum trauma passado foi-lhe revelado ou explicado como “ causa” de suas dificuldades. Sua presumível infância miserável não foi oferecida nem como   desculpa nem como explanação para seus fracassos ou sua pobre opinião de si mesmo.

De fato, ao invés de trazer à percepção idéias sobre o passado, a terapia fez uso extenso da amnésia deliberada para manter as idéias fora de sua consciência, a não ser as do planejamento deliberado, e essas idéias não diziam respeito ao passado, mas a suas próprias

capacidades no presente. A abordagem terapêutica foi marcadamente ericksoniana e incluiu muitas táticas apropriadas para uma experiência de aprendizado; no entanto, Harold não aprendeu por que ele era daquele modo, mas como ser diferente e ter sucesso. Talvez o aspecto mais notável deste caso seja o fato de que o paciente não aceitou, ou não chegou a um acordo com Erickson, sobre o fato de não ser estúpido até que tivesse completado uma série de realizações, inclusive o sucesso na faculdade. Um outro fator importante deve ser ressaltado: durante a terapia Erickson empregou uma intricada combinação entre autoritarismo e autonomia, sendo autoritário com o paciente em certos pontos e permitindo-lhe quase total autonomia em outros. Grande parte da terapia envolveu ações autônomas do paciente, independentes de Erickson. De certa forma, Erickson trabalha com o paciente como se deve trabalhar com o trator utilizado em seu exemplo. Ele “ apronta ” o paciente para dar a partida e então deixa que funcione a seu próprio modo.

SOCIALIZAÇÃO E COMPORTAMENTO DE NAMORO

Enquanto integrava Harold numa melhor posição profissional na sociedade, Erickson também trabalhava sua habilidade para se envolver nas atividades normais de namoro. No início da terapia, as relações de Harold com outras pessoas estavam quase totalmente limitadas

à irmã e ao cunhado. Ele não tinha amigos e evitava totalmente as mulheres. Jantava em casa para evitar garçonetes, fazia compras, sempre que possível, com vendedores e freqüentemente andava a pé para não entrar num ônibus onde havia passageiras. Achava difícil tolerar até mesmo a presença física da irmã, e só o fazia porque ela era sua irmã. Suas atividades sexuais se restringiam a contatos ocasionais com homens com quem praticava uma felação passiva e ocasionalmente ativa. Preferia parceiros com os seguintes atributos: deviam ser mais moços do que ele, preferivelmente de origem mexicana, com cabelos compridos, pesando entre sessenta e cinco e setenta quilos. Deveriam ter rosto redondo, lábios grossos, ombros estreitos, quadris grandes, um andar bamboleante, usar perfume e óleo de cabelo e ter uma tendência a rir prontamente sem motivo. Harold conhecia uma porção de punks que preenchiam esses requisitos, e uma vez ou outra ligava-se a eles. Harold nunca tivera qualquer ligação com uma mulher, nunca havia tido um encontro e insistia que não queria nada com as mulheres.

O problema terapêutico de integrar Harold num comportamento de namoro normal era obviamente imenso. Erickson procedeu de maneira típica; começou oferecendo sugestões

indiretas que tornavam a companhia de mulheres mais agradável e propôs uma série de tarefas que conduziram ao comportamento de namoro. Uma parte necessária desta diligência era tornar

Harold mais atraente aos olhos das mulheres, fazendo-o mais atraente no vestir, nas condições de vida, na posição profissional dentro da sociedade. Logo no início da terapia, Erickson atribuiu a Harold a tarefa de desenvolver uma amizade com um total estranho e pediu que fizesse

isto em uma semana. Harold concordou relutantemente, “ parecendo inseguro sobre o que era desejado, se o sucesso ou o fracasso” (talvez por Erickson ter acabado de congratulá-lo pelo fracasso no curso de álgebra). Ao estabelecer esta tarefa para ele, propus que caminhasse ao

redor de algum pátio de trailers que ele mesmo escolheria. Então manobrei- o para que escolhesse um certo pátio de estacionamento onde vivia outro paciente meu, cujos hábitos eu conhecia. Harold, muito tipicamente, esperou até a última noite da semana e então, com muito

medo e incerteza, começou a caminhar por entre os trailers do pátio, especificamente às dezoito horas. Quando passou por um dos veículos, foi saudado por um homem e sua esposa, que estavam sentados à sombra do trailer. Tinham o hábito de se sentarem ali naquele horário para convidar os transeuntes para uma visita social. A amizade floresceu, e muitas semanas se passaram antes que ambos soubessem que eram meus pacientes. No começo, todo o esforço para travar amizade foi feito pelo casal, mas, com a continuação das visitas, Harold se tornou menos passivo e respondeu melhor. Embora muitos terapeutas esperem que um paciente solitário encontre um amigo, Erickson prefere ter certeza de que isto vai acontecer.

Ele pode arranjar diretamente a amizade, ou pedir que o paciente esteja num lugar onde sabe que provavelmente poderá ocorrer uma amizade. Quando isso acontece, o paciente em geral pensa que o encontro ocorreu espontaneamente. Sua próxima tarefa foi uma exigência mais direta. “Algum tempo depois, quando a amizade com o casal estava bem encaminhada, atribuí a Harold a tarefa de travar mais um novo conhecimento. Forneci a ele um endereço, mandando

que fosse lá, aprendesse tudo bem, não deixasse de observar nada e fizesse freqüentes visitas àquela pessoa.” Foi dessa maneira que Harold conheceu Joe, o faz-tudo defeituoso, e desenvolveu uma importante amizade que durou dois anos, até a morte de Joe. Arrumando relacionamentos desse modo, Erickson evita que a relação com o terapeuta tenha um caráter substitutivo e impeça

relacionamentos mais normais. O próprio terapeuta provoca outras relações. O próximo passo na socialização de Harold foi ele ter aceito lições de piano de uma velha professora em troca do trabalho no quintal. Deste modo, ele vivenciou um relacionamento de aprendizado com uma mulher, e também uma relação na qual era o homem competente, fazendo o que seu marido enfermo não podia fazer. Quando Harold já era capaz de se associar com um casal, um amigo e uma mulher mais velha, Erickson exigiu um outro passo. Sugeriu que Haroldo aprendesse a nadar na ACM e aprendesse dança de salão. Harold reagiu a ambas as sugestões com violenta repugnância e angústia emocional. Agitado, explicou que as mulheres podiam usar a piscina na ACM, uma vez por semana, e ele não conseguia tolerar o pensamento de imergir seu corpo em água tão poluída. E, quanto a dançar, isto exigiria que ele voluntariamente tocasse corpos de mulheres, idéia intolerável. Com uma insistênc!; elaborada e horrorizada, explicou de novo que era homossexual. tae as mulheres lhe pareciam totalmente repulsivas e que já tini; muita dificuldade com as mulheres que o mundo forçadamente jogava sobre ele para que eu ainda piorasse isto através de exigências nada razoáveis. Erickson lhe dava duas diretivas ao mesmo tempo, uma mais difícil do que a outra, dc modo que o paciente pudesse rejeitar

uma e ainda assim tivesse de seguir a segunda. Neste caso, a sugestão da dança de salão era mais abominável do que a de nadar na ACM, uma organização só de homens. No entanto, aconteceu que Harold, com um pouco de encorajamento, conseguiu dar conta das duas atividades.

Quando Harold se negou a nadar e dançar, ofereci-lhe uma analogia.  Ele estava disposto a colher, à mão, as verduras que cresciam num campo fertilizado e pulverizado com veneno para insetos. Ele sabia que podia se lavar e lavar as verduras, e com isso se beneficiar de seu valor alimentício. Do mesmo modo, afirmei dogmaticamente que qualquer coisa que acontecesse na natação ou na dança poderia facilmente ser corrigida com água, um pedaço de um bom sabão forte e uma toalha. Essencialmente, o que fiz foi descartar sumariamente suas objeções. Então comecei a salientar que o melhor lugar para aprender a dançar era um estúdio de dança profissional, onde todos os contatos seriam rigidamente impessoais. A razão para essas duas atividades era que ele, como um trabalhador, aprendesse duas habilidades físicas diferentes, ambas baseadas em ritmo.

Harold aprendeu rapidamente a nadar e dançar e começou a usar determinado sabão para sua limpeza ritual depois dessas atividades. Chamei sua atenção para outra marca de sabão, tão boa quanto a que usava, sem ser realmente melhor — na verdade, ambas eram totalmente adequadas. Desta maneira, Erickson manobrou parcialmente a compulsão de Harold em se lavar como um modo de encorajá-lo a novas atividades sociais. Começou então a solapá-la, como em geral faz com tais compulsões, desritualizando-a; tanto fazia uma marca ou outra de sabão, um momento ou outro, uma quantidade de banhos ou outra. Enquanto Harold estava sendo requisitado a participar de atividades sociais que envolviam mulheres, ao menos de modo impessoal, Erickson dedicou as sessões terapêuticas a modificar uma idéia do paciente e a reclassificar vários aspectos de sua vida. Quando me pareceu que Harold estava receptivo a discutir a sexualidade, introduzi este tópico nas sessões terapêuticas. Eu salientei que, assim como eu tinha uma diversidade de interesses e conhecimentos, ele ao menos deveria ter um conhecimento geral dos muitos aspectos da vivência humana necessários à preservação da espécie. Por exemplo, afirmei que ele classificava a si mesmo como homossexual e a mim como heterossexual, mas que fazia isto às cegas, sem realmente compreender o que cada um dos termos queria dizer ou implicava. Então lhe ofereci um relato factual do que constituía o crescimento e o desenvolvimento sexual, juntamente com uma explicação sobre a maneira diferenciada como os indivíduos e as culturas abordam as crenças e práticas sexuais. Salientei que queria que ele escutasse e compreendesse, mas não fizesse nenhum esforço para modificar seus pontos de vista pessoais sobre si mesmo. Deste modo, ofereci-lhe a oportunidade de modificar seus pontos de vista espontaneamente, não como um esforço auto-imposto. Depois ofereci a Harold um relato simples, factual, um tanto acadêmico, da fisiologia do sexo e de sua importância biológica. Entrelaçadas nele estavam outras idéias, como o ritmo sexual, a dança de acasalamento dos pássaros, o período de cio dos animais, práticas culturais diferentes de comportamento sexual, e música, dança, canto e literatura sobre o assunto. Isto o conduziu, como mais tarde descobri, a leituras sistemáticas na biblioteca. A seguir, dei a Harold uma série de instruções que ele não deveria executar até um dado momento no futuro. Essas instruções gerais, aparentemente vagas, enigmáticas, foram-lhe repetidas em estado de transe. Eram as seguintes: (a) descobrir que existem jovens muito infelizes neste mundo, jovens que têm medo de fazer o que querem; (b) observar essas pessoas e especular por que elas se comportam deste modo; (c) descobrir que muitos jovens infelizes esperam, mas não acreditam realmente, que alguém os ajude; (d) dar a um número limitado dessas pessoas a ajuda que desejavam de modo imparcial e

impessoal. Quando julguei que ele poderia executar esta tarefa com segurança, instruí-o a visitar vários salões de baile local e observar cuidadosamente uma quantidade de rapazes que queriam dançar, mas eram muito envergonhados e medrosos até mesmo para aprender. Depois, deveria notar as moças, as moças gordas, as sem graça, as magricelas,  as que tomam chá de cadeira e procuram esperançosamente um parceiro ou dançam desesperadamente umas com as outras enquanto fitam os rapazes que caminham por ali, muito envergonhados para dançar.

A reação de Harold não foi de repulsa, mas uma chocante descrença de que tal situação existisse. No entanto, na primeira vez que tentou executar a tarefa, teve uma relutância quase paralisante, e somente após um período de quase três horas e vários inícios falsos ele realmente conseguiu chegar a um salão de dança público. Ali, encontrou um grupo de rapazes acotovelados e fazendo afirmações do tipo: “Ahh, vá primeiro” , “ Se você for, eu vou” , “Ah, não sei dançar”

, “ E daí? Talvez alguma das damas possa lhe ensinar” , “Vá na frente” , “Ah, e quem quer dançar?” .Harold me explicou mais tarde que, depois de ter percebido o significado desta situação, ficou andando de um lado para outro do salão, observando meia dúzia de moças, que obviamente tomavam chá de cadeira. Elas estavam desanimadas, mas o fitavam esperançosamente, até que ele parou, indeciso. Então, de novo desencorajadas, elas voltaram sua atenção para a pista de dança, onde várias moças dançavam juntas. Harold relata: “ Tentei me controlar, andei até

lá, dancei uma música com cada uma daquelas garotas, e então sai do local para poder refletir sobre tudo aquilo” . Harold fez três visitas aos salões de baile e concluiu: “Esta experiência sem dúvida me ensinou que não sou tão ruim quanto pensei. Tenho medo de fazer as coisas” . Repliquei vigorosamente: “Não, você não é tão ruim quanto acredita ser. Então por que não vai à Administração dos Veteranos e pede que lhe apliquem testes psicológicos para verificar o quanto é bom?” . Imediatamente mandei-o embora, com uma disposição mental um tanto confusa.

Alguns dias depois Harold voltou. Era quase outra pessoa. Relatou, com júbilo, que o resultado dos testes indicava que ele havia recebido o equivalente a uma educação de segundo grau e estava qualificado para entrar na faculdade. Ele disse: “Nada mau para um cara estúpido” . E eu respondi: “Não, nem mesmo para um cara que tem certeza de que é estúpido” , e abruptamente terminei a entrevista. Depois disso, recusei-me a marcar várias consultas, pois acreditava que ele tinha muito em que pensar. Esta tarefa especial é típica da abordagem de Erickson. Ele geralmente

dá ao paciente uma série de instruções gerais, um tanto vagas, e então arranja uma situação onde elas possam ser seguidas, enquanto o paciente tem a sensação de ter tomado espontaneamente

a decisão. Neste caso, Harold foi aconselhado a oferecer uma ajuda limitada a alguns jovens; mais tarde, foi enviado ao salão de baile úblico. Uma vez ali, ele “ espontaneamente” decidiu tirar algumas moças para dançar, e experimentou uma sensação de realização. Ao mesmo tempo, o objetivo das instruções era colocar Harold na situação normal de namoro, fazer com que se comparasse com outros homens, e deixá-lo descobrir que era capaz de fazer o que outros homens

não conseguiam. O resultado foi uma experiência normal que Harold anteriormente havia recusado: ir a bailes e dançar com mulheres estranhas. Harold não iniciou um relacionamento mais íntimo com uma mulher até bem mais tarde, quando já freqüentava a faculdade, e Erickson só ficou sabendo dessa relação muito tempo depois. Durante este período, Erickson treinou Harold na distorção do tempo — o uso da hipnose para afetar o sentido de tempo, de modo que o que acontece em minutos possa ser subjetivamente sentido como sendo horas. Em parte isto deveria ajudá-lo no trabalho acadêmico. Nesta época, Erickson deu a Harold seis sessões de hipnose profunda, nas quais, com o uso da distorção do tempo, fez com que se sentasse silenciosamente e revisse quem e o que era e quem e o que gostaria de ser. Além disso, deveria passar em revista seu passado, comparando-o com o seu futuro, sua realidade como criatura biológica com forças emocionais e físicas e suas potencialidades como uma personalidade humana que funcionava com um razoável grau de adequação na relação consigo mesmo e com os outros. Durante estas sessões Harold parecia intensamente envolvido na solução de problemas, alguns agradáveis, a maioria desagradáveis, mas aparentemente momentâneos. Após estas sessões hipnóticas, ele não apareceu por duas semanas, e então surgiu no consultório com um “ novo problema” . Harold parecia um tanto tenso, e seu comportamento geral parecia

um tanto mudado e menos familiar. Parecia querer informação, mas não desejava que eu me inteirasse mais do que o necessário da situação. Por isso, ouvi passivamente seu relato, fui evasivo em relação às coisas positivas, mas atrevidamente enfático sobre as negativas. O caso era que há algum tempo — ele não sabia exatamente quando, “mas já há algum tempo, talvez um longo tempo” — uma mulher havia se mudado para o apartamento vizinho ao seu. Mais tarde, ele notou que ela saía e entrava no hall do elevador toda manhã e toda tarde na mesma hora que ele. Tornou-se dolorosamente cônscio disto quando ela começou a bradar-lhe calorosos “ Oi, como

vai?” ou “Olá” . Isto o aborreceu, mas ele não sabia enfrentar a situação, a não ser respondendo.

A seguir, a mulher começou a parar o carro para envolvê-lo numa conversa breve e casual. Isto o afligiu “horrivelmente” , porque originou gracejos dos outros vizinhos. Por eles, ficou sabendo que ela era quinze anos mais velha do que ele, separada do marido alcoólatra, que a espancava, e que estava trabalhando para ter fundos para o divórcio. “Nenhuma perturbação real” ocorreu até certa noite em que ela, “ sem desculpa alguma” , “ invadiu” seu apartamento carregando vários mantimentos e começou a preparar um jantar para os dois. Como desculpa para seu “ comportamento abusivo” , ela declarou que um homem devia ter uma mulher para fazer-lhe uma refeição de vez em quando. Depois do jantar, enquanto ela lavava a louça, pediu-lhe

que tocasse alguns discos de música clássica. Ele o fez com um sentimento de alívio, pois isto tornava desnecessária a conversação. “ Felizmente, depois de arrumar a cozinha” , ela foi embora. O resto da noite, quase até o dia clarear, ele ficara andando de um lado para o outro, “tentando pensar, mas sem conseguir ter nenhum pensamento” . Algumas noites depois, no momento em que ele começava a preparar sua refeição noturna, a mulher “ simplesmente entrou e me disse

que o jantar estava pronto e esperando em seu apartamento” . Não havia nada que ele pudesse fazer. “Não consegui pensar em nada para dizer, por isso fui, como uma criancinha, e jantei. Depois do jantar, ela simplesmente empilhou a louça e se convidou para ir ao meu apartamento escutar música. Foi o que fizemos, e ela foi embora lá pelas dez horas. Não consegui dormir aquela noite. Nem mesmo conseguia pensar novamente. Só pensava estar enlouquecendo,

e era horrível. Sabia que deveria fazer alguma coisa, e alguma coisa muito importante, mas não sabia o quê. Não descobri por duas semanas. Veja, comecei a evitá-la, mas depois de umas semanas resolvi o que devia fazer. Iria fazer um jantar, convidá-la e isto deveria satisfazê-la. Foi o que fiz; só que não funcionou como eu desejava. Foi um bom jantar e tudo o mais, e sou eu mesmo que o digo. Escutamos música de novo — ela realmente gosta de música, e entende

do assunto. Ela é uma mulher muito inteligente, embora bem tola em alguns aspectos. De qualquer modo, foi embora por volta das dez e meia; e, quando se dirigia para a porta, ela se inclinou e me beijou. Poderia tê-la matado. Não consegui fechar a porta rápido o suficiente. Corri para o banheiro, entrei no chuveiro e abri as torneiras. Ensaboei meu rosto mesmo antes de tirar as roupas; tive um trabalho infernal. Ensaboava e esfregava, ensaboava e esfregava mais uma vez.

Aquela noite foi realmente turbulenta. Várias vezes me vesti e me dirigi ao telefone público para ligar para você, mas sabia que não deveria telefonar antes que amanhecesse. Assim, voltava para casa, entrava no chuveiro e me ensaboava e esfregava mais. Meus Deus, estava

maluco. Sabia que tinha que lutar para tirar aquilo de mim, mas o que era, ou como iria conseguir, eu não sabia. Finalmente surgiu a idéia de que eu já resolvera tudo. Isto foi depois de ter aquela meia dúzia de entrevistas com você, quando ficava incrivelmente cansado.

Algo na minha cabeça parecia dizer: ‘Esta é a resposta’, mas ela não fazia sentido antes, agora faz. Mas me ajudou a parar de me esfregar. “ Não sei por que estou aqui hoje, mas tinha de vir. Não

quero falar nada, mas ao mesmo tempo, quero ouvi-lo falar comigo. Mas seja muito cuidadoso com o que disser. E me desculpe também por falar deste modo, mas sinto que preciso ter certeza. Este é o meu problema.” Cuidadosamente, passei a uma discussão geral, vaga, deliberadamente destinada a ser tangencial à comunicação de Harold. À medida que ele foi relaxando, salientei que não se deveria culpar ou criticar a mulher pdr ela querer o divórcio; que o casamento

deve oferecer mais doque infelicidade e abuso físico; que todo ser humano tem direito à felicidade pessoal e física. Como ela estava disposta a se manter sob todos os aspectos, ela certamente possuía qualidades merecedoras de respeito, admiração e apreciação. Quanto  à sua afabilidade e intrusão na privacidade dele, era preciso reconhecer que as pessoas são especialmente gregárias, e era normal que ela, ele, ou todo o resto da raça humana, buscassem companhia  e partilhassem experiências comuns. Isto poderia explicar o comportamento dela, e mesmo a aceitação dele. Quanto às refeições, desde o começo da história os dois melhores condimentos alimentares haviam sido o tempero da fome e da boa companhia. A música, também, é mais apreciada em companhia de alguém. Quanto àquele beijo que o afligira tanto, só se podia especular sobre o possível significado de um ato físico tão simples. Há o beijo de amor, de compaixão, da morte, da mãe, de uma criança, de um dos pais, de um avô, o beijo de saudação, de despedida, de desejo, de satisfação, para mencionar apenas alguns. Antes que ele desse algum significado especial àquele beijo, teria que saber que tipo de beijo fora aquele. Isto ele só poderia descobrir pensando livre e de bom grado sobre o assunto, sem medo do terror, só com o desejo de aprender. Ele também deveria estar disposto a reconhecer o significado que desejava que o beijo tivesse. Quanto a qualquer implicação pessoal do comportamento dela ou dele, nada realmente poderia ser dito, porque nenhum dos dois havia fornecido uma definição reconhecível de sua conduta. No entanto, podia-se dizer que ele não deveria hesitar em rejeitar qualquer coisa que achasse conveniente rejeitar. Após esta declaração, houve um silêncio de uns cinco minutos.

Harold despertou e comentou, depois de olhar o relógio: “Bem, preciso ir andando, seja lá o que isto queira dizer” , e partiu. Um aspecto deste discurso merece consideração. Erickson não tenta, de modo algum, ajudar Harold “ a compreender” , no sentido psiquiátrico usual, o significado que a experiência tem para ele. Não há interpretações sobre os significados maternais, sobre a mulher

ser mais velha, ou outros supostos significados simbólicos da situação. Por conseguinte, também não há uma sanção negativa contra a relação. Ela é tratada como uma experiência real, com uma

mulher real. Uma semana depois, Harold foi recebido durante uma hora.

Ele disse: “Eu realmente não deveria lhe perguntar, mas algo dentro de mim quer saber o que você acha de Jane. Portanto, discuta ela comigo, mas faça-o cuidadosamente, o que quer que isto signifique. Tenho uma espécie de idéia tola, porque você não a conhece — só sabe as poucas coisas que eu lhe contei. Mas ainda quero saber o que pensa dela; mas fale com cuidado, seja lá o que isto signifique” . Erickson respondeu com uma discussão geral e objetiva sobre a mulher.

Desembaraçadamente, mencionei idéias de significado especial para Harold. Descrevi Jane como uma criatura biológica que, por dote natural, possuía uma abundância de traços, qualidades, atributos, aprendizados de vários graus, aos quais reagiria de várias maneiras

e que a tornavam única como indivíduo. Outros membros da humanidade responderiam a ela segundo suas próprias capacidades e necessidades. Por exemplo, sua história do casamento indicava que ela era uma mulher heterossexual atraente para o homem heterossexual;

seu emprego indicava sua capacidade de ser produtiva; o fato de ela querer o divórcio indicava um desejo de felicidade como pessoa; o fato de ele apreciar as refeições e a companhia dela indicavam que ela lhe interessava. Salientei também que qualquer progresso terapêutico amplo que ele desejasse incluiria mulheres, não necessariamente aquela, como uma parte da realidade da vida. Encerrei a sessão dizendo, na linguagem que Harold usara da primeira vez que viera me ver: “ Pro inferno se não tiver que descobrir que tipo de criatura é a mulher. Você não vai deixar ela te fisgar, nem vai atrapalhar ela ou deixar ela atrapalhar você. Tudo que vai fazer é colocar os pingos nos is” . Falei deste modo para forçá-lo a reconhecer o contraste entre seu status original e o atual. Ele foi embora sem fazer comentários, mas me lançou um olhar curiosamente especulativo da porta, como se não soubesse bem o que dizer.

Harold não havia solicitado uma outra sessão, mas retornou algumas semanas mais tarde e disse:

“Gostaria de lhe contar do meu modo, mas você é um psiquiatra. Devo-lhe tudo, e por isso devo contar do seu modo, e talvez isto seja útil para outra pessoa. “Aquela última coisa que você me disse, para colocar os pingos nos is, quase lhe respondi que iria fazer exatamente isto. Mas percebi

que você não estava nem um pouco interessado no que eu pudesse dizer. Você só queria que eu descobrisse por mim mesmo quem eu sou, o que sou e o que posso fazer. Lembra-se de como fiquei parado à porta, fitando-o durante um minuto? Eis o que estava pensando. Sabia que as respostas surgiriam uma a uma. Durante o trajeto até minha casa, eu sabia isso, e me divertia porque não sabia quais eram essas respostas. Sabia apenas que eu as exporia uma a uma.

“Quando cheguei em casa, por volta das cinco e meia, fiquei intrigado porque me descobri indo até a porta e espiando para fora como se estivesse esperando alguma coisa. Foi só quando Jane colocou seu carro na vaga do estacionamento que percebi que a estava esperando. Fui falar com ela e a convidei para jantar. Naquela manhã, eu ficara intrigado com a quantidade de coisas que eu trouxera das compras. Ela aceitou e fez o jantar, enquanto eu tocava guitarra e cantava um dueto com uma fita do gravador. Depois do jantar, coloquei alguns discos, e nós dançamos até que sentimos vontade de nos sentar. Quando nos sentamos no sofá, eu disse que iria beijá-la,

mas que antes iria refletir se gostaria daquilo. Enquanto eu fazia isto, eu disse, ela podia esgotar as resistências de seu sistema. Ela pareceu intrigada e então desatou a rir. Percebi que o que dissera deveria lhe parecer um tanto estranho, mas realmente queria dizer aquilo. Quando ela parou de rir, tomei seu rosto em minhas mãos e a beijei, primeiro numa das faces, depois na outra, e então na boca. Gostei, mas estava sendo tão sistemático que ela pareceu assustada, de modo

que sugeri que dançássemos. Enquanto dançávamos, comecei a beijála novamente e ela correspondeu. “ Foi então que outras coisas começaram a me acontecer, e eu sabia que não estava pronto para aquilo. Por isso parei de dançar, toquei música clássica para ela, depois cantei algumas canções que conhecia, e ela cantou junto. Ela tem uma bela voz. Então eu a levei para casa e dei-lhe um beijo de boa-noite. Naquela noite dormi feito um bebê.”

Neste ponto, Harold estava se preparando para iniciar uma atividade sexual normal, e deve-se ter em mente quanta preparação elaborada havia sido prevista para criar um ambiente onde isto fosse possível. Harold pôde começar uma atividade de namoro mais normal porque agora se vestia adequadamente, vivia num apartamento respeitável, freqüentava a faculdade e tinha um bom emprego. Era também capaz agora de partilhar com aquela mulher um interesse

por música e culinária. Ainda mais, ele havia tido experiências prévias de relações sociais. Podia dançar, pois tinha experiência de dançar com mulheres. Finalmente, sua atitude em relação às mulheres havia sido reorientada, e ele havia desenvolvido a curiosidade e o desejo de fazer explorações. Harold continuou seu relato: “Quando acordei na manhã seguinte, fiquei feliz por ser um domingo. Queria ter um agradável dia de lazer, só para apreciar a vida. Por volta das três horas da tarde, fui ver Jane. Ela estava ocupada confeccionando um vestido, e eu

lhe disse que continuasse o trabalho, que eu teria um jantar pronto às seis horas. Depois do jantar, tocamos música clássica e algumas coisas populares no gravador. Dançamos até ficarmos cansados, e então nos sentamos no sofá. Eu a beijei e ela correspondeu, e começamos

a nos acariciar. Eu estava muito circunspecto, porque sabia que era só um novato e provavelmente desajeitado, de modo que ela me agarrou e beijou, e aprendi o que é um beijo francês. Primeiro, nós dançamos, depois nos acariciamos, e então dançamos um pouco mais.

Toda vez que nos acariciávamos eu tinha uma resposta fisiológica, mas sabia que não estava pronto para expor minha resposta quanto a este assunto. Finalmente, tocamos alguns discos clássicos e eu a levei para casa, dei-lhe um beijo de boa-noite, sentindo muito afeto

por ela, e fui para a cama. Dormi bem. “Não a vi durante uns dois ou três dias. Foram dias um tanto peculiares, porque tenho um branco completo a respeito deles. Segunda-feira, levantei me sentindo bem. Pensei sobre a noite de domingo e foi agradável. Então saí para o trabalho, e a próxima coisa de que me recordo é que o dia estava acabado e eu estava de volta ao apartamento. Não conseguia me lembrar de uma só coisa do dia todo, mas tinha uma forte sensação, e uma boa sensação, de que tinha feito tudo adequadamente no trabalho. Terça-feira fui trabalhar,

 disposto a perguntar, discretamente, o que havia acontecido na véspera, e a próxima coisa de que me dei conta foi de estar voltando para o apartamento. Fiquei intrigado, não confuso, e cogitando sobre o que aconteceria na quarta-feira. Naturalmente, ela também se evaporou,

mas dei por mim trazendo para casa uma grande sacola de mantimentos. O que me surpreendeu foi que o talão de compras mostrava que eu havia comprado numa loja em que nunca entrara antes. Enquanto tentava me lembrar como era a loja, devo ter andado distraidamente

até a porta de Jane. Fiquei tão surpreso quando ela me saudou que lhe disse que não precisava ir se vestir — ela usava somente shorts e uma blusa. Disse que estava pronto para ela, que poderia

vir jantar.” Nesta noite, Harold teve sua primeira experiência sexual, e a vivenciou como uma curiosa exploração. Depois relatou: “Depois que tomamos café da manhã, Jane foi trabalhar, mas

eu fiquei em casa. Fiquei o dia todo em casa, me sentindo feliz, realmente feliz, pela primeira vez em minha vida. Não dá para explicar. Há coisas sobre as quais se pode falar a respeito, mas não se consegue colocar em palavras. Quinta-feira foi um dia assim. “ Havíamos combinado nos encontrar sábado à noite, e sextafeira fui fazer compras. No sábado, limpei o apartamento, e não tinha nenhuma lembrança do que havia acontecido nos dois últimos dias, só a sensação confortável de que tudo havia corrido bem. Sábado à tarde, preparei um jantar muito requintado, e Jane chegou vestindo um belo vestido feminino. Quando a elogiei, ela disse que gostava de minha gravata. Foi quando percebi que também havia me arrumado. Isso me surpreendeu.

“ Comemos, dançamos, nos acariciamos. Por volta das dez horas fomos para o quarto. Foi diferente desta vez. Eu não estava tentando aprender alguma coisa ou me mudar. Éramos apenas duas pessoas que gostam muito uma da outra quando fazem amor. Em algum momento, depois da meia-noite, adormecemos. Na manhã seguinte ela preparou o desjejum e foi embora, explicando que esperava um amigo que iria ficar com ela por alguns dias. “ Segunda de manhã levantei cedo e fui trabalhar, não sabendo por que estava indo mais cedo. Não demorou muito para descobrir. Guiava pela rua quando aconteceu. Uma jovem veio em minha direção pela calçada e fiquei tão espantado que tive que frear e observá-la com o canto dos olhos, até ela passar. Aquela jovem era linda, inteira e absolutamente, incrivelmente linda — a primeira moça linda que eu via. Dois quarteirões mais para a frente, a mesma coisa aconteceu de novo, só que desta vez eram duas moças absolutamente belas. Foi difícil chegar ao trabalho. Queria parar e olhar as coisas. Tudo estava tão mudado! A grama estava verde, as árvores eram lindas,

as casas pareciam recém-pintadas, os carros na rua pareciam novos, os homens se pareciam comigo, e as ruas de Phoenix estavam cheias, simplesmente repletas, de moças bonitas. E tem sido assim desde segunda-feira. O mundo está mudado. “Na quarta-feira fiquei me lembrando daqueles punks que costumava conhecer, por isso guiei até o outro lado da cidade e observei alguns deles. Foi uma experiência surpreendente. Devo ter estado realmente muito doente para ter algo a ver com essas pobres criaturas. Senti muita pena deles. “Não aconteceu mais nada até sábado, depois que o visitante de Jane partiu. Nós tivemos um bom jantar e, quando desligamos

 

o toca-discos, nós dois sentimos que era tempo de ter uma conversa séria. Tivemos uma conversa sensata sobre como poderíamos ter prazer um com o outro, mas isto realmente não fazia nenhum sentido. Eu deveria encontrar uma moça da minha idade e ela deveria pensar num homem da sua. Concordamos em romper, mas permanecer amigos, e foi assim que tudo se passou. “Tenho ido à igreja, aos clubes de gente jovem, tenho feito um circuito turístico. Homem, como tenho estado vivo e apreciado isto! Tenho um futuro também. Estou terminando a faculdade e sei que tipo de carreira desejo. E sei que quero uma esposa, um lar e filhos.” Harold terminou a faculdade e encontrou um emprego responsável que aprecia. 

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